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November 21st, 2003
12:15 am E se a sua vida coubesse, toda ela, não, boa parte dela, não, uma parte significativa dela, numa tela pálida de computador?
E se ela começasse a escorrer, em forma de letrinhas pretas, como se fosse o seu próprio coração esmagado?
Triângulo tem Três Pontas, 2002, é o meu primeiro livro publicado na Internet. Porque sim. Porque as Editoras demoram muito para resolver se você vai vender ou não e as pessoas demoram muito para entender se o que você faz pode ser considerado literatura ou não. Então, caguei. Viva a independência! E leia quem quiser e/ou se sentir confortável.
No mais, Triângulo é, como o nome sugere, uma história sobre uma garota fodida, Anne, que tenta ser feliz com seus dois "amores" (humm, ela não ia gostar dessa definição) fodidos: Kate e Rey. A história toda tem como pano de fundo a vida nos bares e a gente de São Paulo.
O jantar está na mesa. Sirvam-se.
A autora adverte: Trata-se de uma obra de ficção. Ponto. Qualquer semelhança com a vida real, no entanto, não será mera coincidência.
Triângulo tem Três Pontas ©2002 Márcia Gutierrez
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November 20th, 2003
11:36 pm - Triângulo tem Três Pontas Início: Take 1, consulte "previous 50 entries".
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11:32 pm - Nota Tenho a acrescentar que isso tudo está escrito há considerável tempo, inclusive o fim, que eu ia mudar, mas resolvi manter, sendo fiel ao meu texto. Se você conseguiu chegar até aqui, bom, só mais uma coisa: Anne e Kate, após algum tempo afastadas, voltaram a se encontrar e o resto vocês já podem imaginar. Resolveram assumir, enfim, que se amam e se odeiam na mesma proporção. É uma guerra que nenhuma das duas vence. Melhor assim. Enquanto isso, do outro lado do coração, Rey continuou sendo um amor com dia certo para acabar. Não era o que ela desejava, mas até para amar alguém há um limite. Depois disso, vira patologia. No entanto, carregou esse sentimento ainda por um longo Verão. Nem fazia mais questão de esconder. Todo mundo via, todo mundo sabia, menos o principal interessado, porque ele não estava interessado. Todos os seus amigos lhe jogavam pedras. Todos tinham ótimos conselhos para dar: "largue de uma vez esse cara, você é uma garota tão legal..." Ah, sim, legal... Acontece que o coração não ouve conselhos. O coração só bate, e ele batia feito um filho da puta toda vez que chegava perto dele. Assim, seguiu em frente, só esperando pelo dia em que ele finalmente destruiria tudo, o que não tardou.
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11:31 pm - Take 54 De alguma forma eu podia entender que ele não estava lá. Não era algo assim consciente, mas em alguma parte do meu corpo eu sentia a sua ausência. E não era na buceta. Nunca foi.
Um vazio denso. Uma escuridão claramente jogada na minha cara. Uma inquietação nos olhos, por não ter onde repousá-los.
E todos os beijos que eu dei nela – poucos – foram frios. Eu beijava a boca de um cadáver. Porque eu não sou capaz de reativar nada dentro de mim. Nenhuma espécie de sentimento. Sentimentos apagados são um mistério, eu simplesmente não sei onde vão parar.
Lugar chato. Todo mundo morto. Inclusive eu. Imaginava que a morte fosse algo melhor, talvez mais bonita, mas me enganei.
Deus não estava ali. Abandono geral. Miséria.
Até a hora de ir embora, eu não consegui descobrir o que estava fazendo naquele lugar.
Gotas de chuva caindo sobre a minha cabeça. Vento.
De repente eu não era digna de estar em lugar nenhum. A minha alma não tinha função alguma neste corpo jovem e cansado.
Os meus lábios não sorriam, apenas se arrastavam para os cantos da boca numa tentativa frustrada de esboçar alguma emoção. E, Deus, eu não tinha nenhuma.
Lá estava ela. Sentada. O corpo na frente de tudo. Algum dia estará gasta, mas, por enquanto, a juventude lhe cai muito bem. Até quando, bem, eu não sei. Muitas noitadas de excessos.
Eu gostei dela. Continuo procurando razões. Só sei que foi fácil. Foi fácil juntar a loucura dela com a minha. A loucura dá seu grito de liberdade em qualquer fresta, e ela era uma janela escancarada. Ela potencializava a minha capacidade de enlouquecer sem mais nem menos. Desconfio que estive esperando a minha vida toda por ela.
Quanto a ele, só queria um lugar comum. A loucura – a minha ou a dela ou a de quem quer que seja – nunca o interessou de verdade. Mas ele não sabe disso e segue acreditando que pode experimentar de tudo. Realmente pode, mas ninguém promete que sairá ileso. Porque se nada do que vivemos doeu nele, é pior do que eu pensava. No entanto, posso assegurar, anjos e demônios, que em mim doeu o suficiente por nós dois. Por nós três.
Eu nunca acreditei no poder das lágrimas, mas quando você as vê rolando, tem que acreditar que algo real aconteceu ali. Dá muito trabalho chorar para ser mentira. Só por isso me sinto agradecida.
Onde estaria ele? Fiquei a imaginar. Não foi preciso ir longe, porém. Rastejou até o banco de areia e lá ficou, enterrado. Estava escrito naquela cara: todos os homens merecem o chão. Não fui eu quem disse isso. Mas, ei-lo, meu caro.
Não serás tão bem-vindo da próxima vez que voltar. Eu não quero sentir o cheiro de maresia e algas mortas. Minha aversão tem explicação nas graças da decepção e da frustração. É perfeitamente compreendida pela maré de covardes que bóiam atrás de mim – esperava que passasse uma onda e os carregasse, mas o mar é mais seletivo que eu.
E eu nem sou tão grande assim. Ao contrário, às vezes sou até bem pequena. Só não me confunda com o reflexo da sua cara nas águas encardidas perdidas da desilusão. Eu nunca desejei que você fosse mais um. Mas você desempenhou bem demais esse papel para eu rejeitá-lo. Parabéns. As honras ficam para depois. Sem enaltecimentos. Já não me sinto tão grata.
Espero, somente, que não volte. Jamais vou procurar saber de você novamente. Nenhum “alô, e aí, como vai”. Nada.
Sexo é a sua palavra de ordem. Eu prefiro o caos. A desordem. Não acredito em nada do que ela fala. Eu não acredito nela. Mostrou-me todos os caminhos mais fáceis para o fim. Estamos apostando em quem chega lá primeiro. Façam as suas apostas, senhores, só não sejam indiscretos. Nós queremos uma surpresa. Todo final requer grandeza.
Domingo. Dez. 02
Fim
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11:29 pm - Parte IV Todo fim é um começo
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November 18th, 2003
04:08 pm - Take 53 Outro domingo na Lôca (foram vários os nossos domingos na Lôca). Tomamos um ácido ainda no metrô, o chamado "Bicicletinha 2000", segundo ela me disse. Enfiamos aquilo na boca e esperamos derreter. Entramos e fomos beber. A gente sempre bebe. Então ela já se sentia pedalando e corria por todo o bar, e eu corria atrás, pedindo para ela parar porque estava chamando muita atenção. Certo, os outros que se fodessem, mas eu não queria todo mundo olhando para ela naquela hora. Tenho um instinto maternal de querer proteger quem está comigo, mania de colocar a mão nas costas para indicar que aquilo que está sob a minha mão me importa, então não chegue muito perto porque certamente eu não vou gostar. Sou uma mãe.
Ela ficou lá correndo e eu fiquei lá correndo atrás dela, não conseguíamos parar no lugar um segundo, ninguém estava entendendo nada. Quando o Ciccio chegou, arrastei-o para o banheiro e desembestei a falar sobre o "cara da água". Eu disse que ele era bonito e tudo, mas que eu não suporto pessoas que só bebem água e usam óculos sem armação. Ele não entendeu uma palavra, me disse depois que eu estava enrolando a língua e falando tudo num ritmo fora do comum. Então eu saí do banheiro e fui atrás dela de novo, que continuava rindo e correndo pra todo lado. Sentamos um pouco no bar do andar superior, completamente ensandecidas e raivosas. Logo estávamos em cima do balcão, alcancei o teto. Fizemos um pacto – que não será cumprido tampouco revelado aqui. Só posso dizer que a morte é uma idéia romântica. E que ela tem muitas idéias românticas e eu também. Então é isso. Ela chegou com aquela idéia e eu estou sempre esperando por pessoas que cheguem com idéias. Ali estava ela, eu não precisava mais procurar nada. Entendi tudo, consegui visualizar a cena. Parecia real pra caralho. Bem longe daqui. E longe de todos que conhecemos. A gente se abraçou e se beijou e prometemos jamais contar a alguém. Só estávamos loucas de ácido.
A noite é longa e curta. Às vezes não passa nunca, outras, basta um piscar de olhos e já foi. Eu não queria que essa acabasse. Tudo parecia divertido. As coisas ruins não existiam. Somente eu e ela e a droga buscando em cada cantinho obscuro das nossas mentes as nossas pequenas fantasias empoeiradas. Esta é minha, e aquela outra também. A droga agindo e transformando todas elas em realidade, ao menos por uma noite, ou por algumas míseras horas. E depois ainda chegou aquele cara, o amigo dela que passava padê, e fomos com ele para o banheiro, porque nada nunca está suficiente. Não paramos quietas um minuto até as quatro e meia da manhã. E eu ainda queria meus quinze minutinhos de fama prometidos por Warhol. Quinze minutos para dançar ou sabe-se lá fazer o quê lá dentro. Cinderelas sem o sapatinho de cristal. Sem abóboras e sem príncipes encantados também. Matamos os príncipes e fomos à Lôca.
– Só mais quinze minutinhos – eu implorava. –, ainda preciso dançar mais uma música.
Ela não quis. Antes de sair, virei um copo inteiro de vodca com gelo na cabeça do meu amigo André. Ele ficou cobrando o desfecho – porque ninguém joga um copo de vodca na cabeça de alguém e vai embora assim –, mas eu saí com ela e o fornecedor de alegrias baratas. "Baratas", aqui, apenas como força de expressão – se bem que nós não pagamos nada. Atravessamos a rua e entramos no "hotel" em frente. Quarto para três, ele pagou tudo. Dei umas chupadas nela e eles treparam e eu fiquei olhando. Aqueles rastafáris no cabelo dele não me atraíam em nada. E depois que é meio constrangedor tentar achar o pau de um cara que cheirou a noite toda. Ela ainda gemeu, tentando deixar tudo mais ao menos divertido, mas não deu. Ele tinha um inalante doce, com cheiro de coco, e deixou lá, com a gente. Eu já estava enjoada e me ocupei em ficar fazendo caretas, de calcinha, em frente ao espelho. Kate fez o seu número do cinto. Pegou aquele cheio de tachinhas de metal, e bateu em tudo o que pôde. Conseguiu arrancar um cigarro da minha mão sem me arrancar o dedo. Parecia número de circo. O cara saiu correndo, sem fala. Só conseguiu dizer que tinha "negócios". A parede ficou feito tábua de bater carne, acho que faltava até pedaço quando fomos embora. Foi engraçado.
Depois que o cara se foi, finalmente sossegamos um pouco, mas não conseguimos pregar o olho. Rimos de perder o fôlego. Ela disse que me amava. Não pude responder e dei um sorriso. Fiquei deitada de bruços na cama e ela ficou sentada, com as pernas cruzadas, em cima das minhas costas. Também estava só de calcinha preta, sua pele muito branca, seu cabelo preto channel e a tatuagem do gato. Muito bonita essa garota. Mais bonita comigo. Posso falar que isso também me serve. Acho que ficávamos mais bonitas juntas. Que nossos olhos brilhavam, luzes se acendiam e as coisas ficavam legais, dependendo de até onde íamos. Exageramos na dose? Sim, muitas vezes. E isso provavelmente contribuiu para o nosso fim. Nunca tentei controlá-la. Ela tentou, mas perdeu. Eu perdi também, mas tudo bem, porque eu sei cair e quebrar a minha cara e também sei levantar e ir em frente. Espero que ela também saiba. Espero e o tempo passa.
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04:06 pm - Take 52 Talvez não estivéssemos juntas pelas razões certas – coisas como amor e sexo. Mas pelas erradas, com certeza, estávamos. O que é isso debaixo dos nossos pés? Ah, é só o mundo. A porra do mundo inteiro. E, não é muito, acreditem. Quero dizer que podíamos tudo, ou pelo menos era essa a sensação que ficava. Desde escolher a próxima vítima (algum macho ou uma bela fêmea), até a próxima droga. Era uma questão de escolha. Uma vez ela me disse que era meio prostituta. Mas o que é ser meio prostituta? Ficar com o barman para conseguir bebida de grátis e com o passador de papel por uns gramas a mais de pó? Absolvida. No fim, todo mundo se beneficiava dessa pequena troca de favores. O pior de tudo não era isso. O pior, mesmo, era nossa consciência. Não falo de culpa. Falo da extrema consciência que tínhamos a respeito de tudo – de nós mesmas e do que se passava ao nosso redor. Mesmo quando parecíamos completamente fora de órbita, havia uma consciência fria e imparcial que apitava. Um limite. Uma verdade absoluta que só nós duas conhecíamos. Duvido que alguém mais saiba. Sabem nada.
A primeira vez que aparecemos juntas em público, de mãos dadas, foi num show da banda do Augusto. Não era para ser uma atração à parte, mas acabou sendo. Porque as pessoas não se contentavam com olhares discretos; elas olhavam descaradamente, boquiabertas. Duas mulheres felizes, completamente livres para ser o que bem quiserem – e nem são de se jogar fora –, então engulam suas opiniões escrotas pelo rabo! Tínhamos que sorrir e fingir casualidade. Fingir que não estávamos vendo aquele monte de queixos no chão. Uma total falta de privacidade. Essa gente "moderna" que de moderna não tem nada.
Um fotógrafo estava fazendo umas fotos. Disse que era uma matéria sobre comportamento jovem. Tema insosso e duvidoso.
– Vocês são namoradas?
– Somos – ela disse.
Eu não disse nada. É verdade que havíamos dado vários beijos e ido para a cama com o meu ex. Então ela ficou lá, falando besteiras para o fotógrafo. Continuei sem falar nada, achando tudo aquilo muito estúpido, inclusive o fotógrafo.
– Posso publicar a foto de vocês no jornal?
Ah, tudo bem. Ela deu um sorriso rasgado, lógico, e eu ri de mim mesma e do atraso da humanidade. Demos os nossos nomes. Imagina a notinha: "As namoradas Anne Díaz, 23, e Kate Hanz, 22, assistem ao show dos Pirulitos. Um retrato da juventude de hoje. E elas são lésbicas". Oi, mãe, sou eu! Minha família ia adorar. Sou uma pessoa de segredos, segundo minha mãe. Bom, eu já contei para ela que eu tenho namoradas, também, ela que não acredita. Mas essa matéria ridícula, felizmente nunca saiu. Meu amigo, a bicha truqueira, que estava lá de roadie da banda, me chama de "bi" até hoje. Acho hilário.
Depois do show, que eu passei querendo me enfiar debaixo da poltrona porque ela não parava com aquela risadona... HoHoHo... – em pleno teatro – e com aqueles gritos e assobios para um dos integrantes da banda, o meu ex, fomos para um bar e encontramos o sr. fotógrafo. "Olá". Até cumprimentei a banda antes de sairmos. "Parabéns", pelo show. Augusto parecia meio desconcertado. Os que me conheciam "hetero" estavam visivelmente encabulados, e eu nunca escondi nada. Passamos numa festa na casa do irmão do cara da vida dela – ela come os dois – e demos um tempo por lá. Queixos continuaram caindo, dava para ouvir o barulho quando batiam no chão. Era uma novidade para todos que nos conheciam de outros carnavais. Engraçadíssimo. Todos os paus em pé. Ela desfilou de cuecas pela casa. Fiquei sentada olhando aquilo, tentando achar alguma graça, mas eu não achava. Não havia como voltar para casa naquele horário e acabei indo para a casa dela. Chegamos lá e comentamos "as caras". Foram motivo de piadas. Lavamos o rosto e ela me emprestou uma roupa – uma calça de malha rosa, sem elástico, e uma camiseta velha. Dormimos numa cama de casal, ouvindo música, de mãos dadas. Ninguém falou em sexo. E no dia seguinte eu tinha que trabalhar. O despertador tocou. Acordei ela e disse que tinha que ir. Levantou com aquela voz rouca e enfiou óculos escuros na cara. Fiquei esperando. Em seguida, me puxou pela mão e me levou até o portão. Tchau. Olhou para os dois lados, me deu um beijo na boca e eu fui embora.
Não dá para falar, também, que nunca tivemos nada. O que acontece é que nunca nos dispusemos a levar as coisas muito a sério, tipo a ferro e fogo. Era o que rolasse, com quem rolasse, se rolasse.
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04:05 pm - PARTE III Kate – um parêntese
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04:02 pm - Take 51 Saí algumas sextas-feiras, também, com o Rey. Shows de bandas independentes em bares fuleiros, completamente adaptados de última hora, e que ainda por cima levam todo o seu dinheiro embora. Porque ninguém espera que você entre lá e não consuma nada. Sete paus uma caipirinha de vodca. Mais nove de um outro drinque qualquer. Cigarros. Entrada. Dependendo do lugar, uma fortuna em coisas que te animem. Ou não. Li em algum lugar que a década de oitenta inaugurou a época da depressão, e que foi aí que surgiram drogas como a heroína, que te deixam travado, derrubado mesmo. Pessoas trancadas em seus quartos ouvindo Smiths e tomando Prozac, todo mundo triste pra caralho. Muito diferente das décadas anteriores, onde as drogas lisérgicas e as pessoas interessadas em transcender fizeram história. Cabelos ao vento, sem lenços, sem documentos. A partir de 80, o grande barato é sofrer. Mártires do rock se matando em 90 em nome de algo que simplesmente não existe – alguma verdade oculta e estúpida o suficiente para permanecer oculta. Mas, resumindo tudo, no final do mês você é uma pessoa falida. E ainda gastou todo o dinheiro do banco. Se vale a pena? Na maioria das vezes não. Mas cortem a minha língua e decepem os meus dedos se eu falar ou escrever aqui que alguma vez não valeu a pena sair com ele. Ele é uma pessoa engraçada, e se há algo que eu preso no mundo são as pessoas que me fazem rir.
Desse modo, estou descendo a Augusta para encontrá-lo. Três debilóides me perguntam quanto eu cobro a hora e eu evito olhar para os carros porque eu não quero que nenhum deles pare; seria uma situação realmente desagradável e vergonhosa – para o motorista, que teria a senhora sua mãe ofendida. O bar está às moscas e ele não chegou. Não há nada a fazer a não ser beber e fumar acendendo um cigarro no outro. Um cara veio com elogios tão baratos quanto a cara dele, continuei olhando para frente e me vendo no espelho. Tenho mania de espelho. E mania de fazer a mesma cara toda vez que eu olho para o espelho. E o filho da puta não chegava, ninguém decente chegava. Fui obrigada a chamar o barman de novo. Meu dinheiro se esvaindo junto com a minha paciência, que é curta. Quando ele finalmente chegou, eu já tava meio bêbada, mostrei o dedo do meio. Ele imediatamente fez aquele sinal de "cu", juntando o polegar e o indicador, aí eu tive que rir. A noite foi legal, mas sem grandes emoções. Tivemos que empurrar o fuca do Sr. Monocelha para ir embora. E fomos.
Quando acordamos, fomos comer numa padaria. Já não me lembro se trepamos, as coisas estão se apagando da minha mente. Talvez pela ação do tempo. Talvez pela ação das drogas. Talvez seja a droga do amor.
Eu tinha que ir para casa e ficamos sentados na pracinha, esperando uma lotação que só eu pegaria. Não fui na primeira, "a outra passa logo" – ele disse. Uma hora depois eu ainda estava lá, no vento, com a bunda quadrada de tanto ficar sentada naquele murinho de cimento.
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03:59 pm - Take 50 Nosso próximo encontro foi no dia do meu aniversário, 19 de julho. Uma banda do Sul vinha tocar aqui e combinamos de ir ao show. Cheguei lá no bar, ainda era cedo e estava vazio, não o vi. Fiquei bebendo sozinha e fumando no bar da frente. De repente ele sai de dentro do bar, com duas garotas, e eu aceno. Me apresenta as duas e diz que uma delas tem cara de carente. Não reparei nisso, mas elas eram bem bonitas. Elas vão para a mesa da frente, onde um grupinho se encontra reunido e feliz, e nós dois ficamos sentados na mesa em que eu estava. Novamente eu não tinha isqueiro e eu não sei o que ele fez com o presente da puta – deve ter dado para alguma outra –, então a gente se revezava na hora de acender os cigarros. De vez em quando ele olhava para a outra mesa, parecia mais divertida que a nossa, mas talvez só tivesse um número maior de pessoas. Acho que ele queria dar uma olhada na garota carente. Falei para ele que era o meu aniversário e ele me deu um abraço e um cd da banda dele de presente. Agradeci. Depois apareceu um amigo nosso e se sentou, até que fomos enxotados porque aquela porcaria de bar já ia fechar. Ficamos um tempo no vento e na rua, conversando com outras pessoas, até que entramos. Lá dentro estava quentinho, mas eu não tirei a minha jaqueta de couro porque estava com a barriga inchada e um vestido apertado. Ele disse que não se lembrava que eu tinha aquelas pernas. Nem eu.
O bar estava bem cheio, achei ótimo. Às vezes até que eu gosto de gente, desde que não se aproximem muito. O Ciccio chegou com uns amigos e fomos para a pista dançar e tirar umas fotos. De vez em quando eu voltava e procurava por ele, que ou estava no sofá ou estava em pé conversando com alguém. Vi algumas pessoas interessantes, mas eu não estava muito interessada nelas, estando com ele. Um dos caras da banda me puxou e me deu um beijo. Eu acho que eu avisei que eu não estava sozinha, mas ele não entendeu. Eles achavam que eram os Beatles. O outro cara da banda tinha uma boca enorme e olhos de gato, fomos simpáticos um com o outro – entendam como quiser. A noite foi bem divertida, recebi meus vinte e três anos muito bem, ao que parece. Na saída o olhos de gato me pediu um abraço, e eu teria lhe dado um beijo, um beijinho, vai... mas não fiquei com isso na cabeça. Fomos subindo a Augusta, eu, Rey, Ciccio e seus amigos, e entramos então num lugar para comer. Aí a carona do Rey aparece – o Sr. Monocelha – e ele resolve não me deixar lá. Fui para a casa dele, mas avisei que eu ia dormir. Dormi.
No dia seguinte, enquanto ele tentava tirar a minha calcinha, avisei:
– Você vai encontrar um o.b. aí.
Fez cara de desgosto. De qualquer forma, ficou feliz com um boquete e gozou no meu cabelo. Fomos comer num restaurante por quilo e eu fui embora com o cabelo duro de porra.
Quando eu cheguei em casa, ainda estava com um enorme tesão. Podia senti-lo entrando e saindo, olhando pra minha cara, a boca só um pouco aberta. Me pareceu uma visão bonita, arranquei a roupa e gozei. Depois fui para o banho tirar a porra do cabelo. Estava cansada e feliz e triste. Tudo junto. Podia chorar com ou sem motivos, era só escolher. Achei melhor mandar ele se foder, no entanto, como se fosse fácil. Calcei o chinelo e fui até a padaria comprar Coca-cola light e Marlboro light – vivemos a era do light. Depois coloquei um vídeo do Lou Reed e dormi no sofá. Não havia ninguém em casa. Nem haveria mais tarde. Dormi com o cabelo molhado, a buceta também molhada, o coração encharcado de todos os sentimentos que não deveriam existir – não para ele – e os olhos levemente úmidos. Foi um sono leve e consciente. Já podia ver claramente eu me fodendo mais uma vez, coisa que eu não queria que acontecesse, mas também não evitei porque, no fim, não sou nenhuma covarde, não. Os covardes são as pessoas que deixam de viver algo por medo; essa não sou eu. Dormi um sono de quem já sabe de tudo e finge que não, para não se desapontar antes da hora. Mas a gente sempre sabe.
No final da tarde o telefone tocou, era o meu amigo Armando dando uma festa "imperdível" na casa dele, logo mais à noite. Achei realmente que fosse perder algo, mas tudo o que eu perdi foram preciosos momentos de estar a sós comigo mesma. Eu gosto de ficar sozinha, que é muito diferente de ser solitária. Gosto de estar só, sem ter que me preocupar se quem está ao meu lado está sorrindo ou não. Na maioria das vezes não estou me divertindo, mas estou fazendo coisas que me interessam mais do que aos outros. Sozinha, me sinto à vontade. Livre. É uma sensação boa, exceto quando chega o inverno e os pés ficam gelados.
Liguei para o Ciccio e fiz ele acreditar também que a festa seria "imperdível". E ele conseguiu convencer mais três pobres diabos de que a festa seria "realmente imperdível". Fomos bater lá na puta que o pariu com uma caixa de suco de laranja e uma garrafa de vodca debaixo do braço. Levei até a máquina. Será uma noite e tanto! Armando veio nos receber com sua roupa glamourosa e seu sapato de bico extra-fino, um perigo para cus desavisados. Entramos. Festa 99% gay. Viva a diversidade! Tentei me animar, dançar, dar uns beijos, beber um pouco, mas eu já saí de casa olhando pra trás. E o meu pior defeito é a teimosia. Sou uma mula. Que desastre! As bichas só queriam saber de dançar Madonna. Quando a gente mudava para rock, logo vinha uma se achando mais amiga do dono da casa e mudava. Eu já tinha visto o suficiente, mas não tinha como ir embora dali voando. Voando muito, até nas asas do demônio. Não demorou, o anfitrião começou a estrebuchar e passar mal e vomitar, então novamente veio um batalhão de bichas porta-voz anunciar que a festa tinha acabado. "Todo mundo fora! Fora! O Armando está passando mal!" Sim, sabíamos. As bichas são seres muito sensíveis. Bichas alcoolizadas são um perigo, elas acham que vão dominar o mundo.
Augusto estava lá, não olhou na minha cara.
Não deixou de ser um alívio o fim da festa, só que ainda estava cedo e eu estava de carona com um cara que simplesmente apagou e não acordou mais. Por sinal, outra bicha. O mundo é gay, você que não sabe. Ficamos sentados na porta do prédio, até que a polícia apareceu. Eu disse para o meu amigo – bicha, lógico:
– Eu estou limpa.
Depois lembrei de algo.
– Não estou, não.
Dei para ele um papel e ele enfiou no rabo, acho. A polícia veio até nós e pediu os documentos.
– Vocês estão na festa?
Não, quadrúpede, estamos aqui fora.
– Não, estamos descansando, a festa acabou faz tempo.
– Okay, obrigado.
Foram bater lá no apartamento do Armando. A velha, que fez a denúncia por causa do barulho, devia estar com TPM ou sem trepar há muito tempo e nem quis atender a polícia, de modo que ficou por isso mesmo. E continuávamos com um defunto no carro, que não acordava nunca mais e eu queria ir embora. Não estava nem bêbada o suficiente para achar graça naquilo tudo. Porra de festa! Porra de bichas! Tudo uma porra! As meninas esticaram duas e mandaram ver. Aquele pó era velho pra cacete.
Depois de muita insistência, o morto concedeu a chave do carro, que eu levei até a Penha, e lá ele ressuscitou e levou até a casa dele; eu fui para a minha e dormi, com o meu cu bem cheio mesmo. A velha lenda da festa imperdível!
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03:58 pm - Take 49 A primeira vez que a gente se viu, depois do chão e de muitos e-mails repletos de putaria e piadinhas internas infames, eu já tava meio desencanada. O tempo tem esse dom de aumentar ou diminuir a intensidade das coisas.
Estava eu de bobeira em casa, num domingo, e resolvi ligar para ele só para bater um papo. Foi uma conversa legal, amigável, e nada mais. Mas daí ele me ligou no dia seguinte, quando eu já estava quase entrando no metrô e indo para casa, e perguntou se eu estava afim de fazer alguma coisa. Eu estava, então disse que o encontraria em meia hora, na catraca do metrô Anhangabaú.
Lá estava ele, com uma camisa bonita e colorida e uma mala de carteiro. E eu estava com uma roupa ridícula de quem vai na esquina comprar pão, e acho que o meu cabelo estava meio sujo. Tudo bem, não me importei tanto com a minha aparência passado tanto tempo. Havia chegado a hora de revê-lo e eu não ia prorrogar mais nada, não havia motivos para continuar fugindo. As coisas acontecem ou não acontecem, não há meio termo. Subi a escada rolante e ele me viu. Tentei fazer uma cara qualquer, olhar para o meu pé – olha quantos buraquinhos têm esse tênis! –, e fui logo passando a catraca – não sei até hoje se era para eu ter passado, mas ali estava eu, uma pessoa decidida.
– Oi. – ele disse.
– Oi.
– E aí, o que vamos fazer?
– Sei lá.
Acho que ele não se lembrava muito de mim, assim, exatamente, mas me reconheceu. Saímos andando como se estivéssemos com pressa. Atropelando pessoas, passando no meio dos ambulantes e das poças de mijo, chutando garrafas, rejeitando aqueles anúncios de "se nada na sua vida dá certo, você pode ter sido vítima de feitiçaria, ligue agora mesmo para 237-5000 e Mãe Clara terá prazer em lhe ajudar, primeira consulta grátis, ela prevê o seu futuro". Então paramos para comprar duas latas de cerveja. Já era tarde e não havia muito o que se fazer ali pelo Centro, por isso ele me convidou para ir beber na Moóca. Entramos com as latas no ônibus e fomos em pé. Alegamos estar comemorando o Penta, duas semanas depois e em plena segunda-feira. Gosto tanto de futebol que perdi todas as partidas. Pena. A brincadeira era a seguinte: nas curvas ele caía em cima de mim, propositalmente, lógico, e eu podia sentir o seu pau.
Descemos e entramos num bar vazio, com paredes vermelhas, palco para shows e mesa de bilhar aos fundos. Ficamos nos fundos, onde estava meio escuro, e podíamos ouvir o som alto que tocava lá na frente. Eu fiquei sentada em cima da mesa de bilhar e ele ficou na minha frente. Depois de algumas garrafas, entre um cigarro e outro, já estávamos mais à vontade um com o outro. De vez em quando ele encostava nas minhas pernas e começamos a ficar ali mesmo, em cima da mesa de bilhar. Acho que ele subiu na mesa e eu sentei por cima dele. Não fomos além disso. Aí ele foi urinar, e eu fui junto, fiquei encarando aquele pau. Saímos do bar e decidimos ir para a minha casa, tava todo mundo viajando mesmo. Não lembro de muita coisa. Sei que as nossas primeiras fodas não foram maravilhosas. Parecia que alguma coisa não dava certo e acabávamos ouvindo música e fumando cigarros. Colocamos a culpa nos pirulitos da Kate, ninguém sabe ao certo que intenções ela coloca neles. É bom que vocês saibam que eu já havia ficado com ela duas vezes, até esse dia. E que coincidentemente ela havia passado no metrô Anhangabaú exatamente poucos minutos antes da minha chegada. Rey pensou que havíamos combinado, mas tudo não passou de uma tremenda coincidência. Quando ele falou que estava me esperando, ela me deixou um beijo e foi embora, tinha uma reunião de trabalho.
Então, como eu já disse, as primeiras fodas não foram ótimas, mas eu gostava de estar com ele. Depois ele ia embora e eu tinha em quê pensar, isso me deixava feliz. Essa rotina – álcool, foda, minha casa – se repetiu algumas vezes. Nos encontrávamos no centro, para beber, e depois acabávamos indo para a minha casa – meus pais estiveram viajando durante quase todo o mês de julho. Já chegávamos sempre com uma boa quantidade de álcool no cérebro.
Certa vez, depois de umas garrafas de cerveja, nós pedimos umas esfihas e, enquanto esperávamos, fomos direto para a vodca com coca. Sentamos no sofá e ficamos bebendo. Nesse dia a minha irmã estava em casa e conversamos um pouco com ela. Depois de alguns minutos ela perguntou se nós não iríamos sumir dali.
Quando as esfihas chegaram, ficaram esfriando sobre a mesa e continuamos na vodca. Eu já estava gargalhando e falando asneiras antológicas. Acho que ficamos ouvindo Patti Smith e eu fiz uma declaração de amor a ela. Também dei uns beijos nele e até tentei comer uma esfiha de queijo, em determinado momento, mas não foi possível e eu a coloquei de volta no pacote, com umas mordidas. Tenho um flash estranhíssimo, eu estava estirada debaixo da mesa da sala. Não sei como eu fui parar lá. Só sei que depois disso, ele disse que eu estava com uma cara estranha e me levou até o banheiro. Enquanto eu vomitava, ele segurava o meu cabelo. Escovei os dentes e subimos para o quarto lá fora. Saí de quatro e vomitei mais um pouco naquele banheiro onde só cabem privada e pia. Capotamos e acordamos mortos de sede no meio da madrugada.
Pela manhã eu estava com uma puta ressaca e desci para tomar um banho. Pedi dez paus para a minha irmã, para poder ir trabalhar, e perguntei se ela tinha ouvido algo. Me chamou de deplorável. Mas, ai, eu estava estupidamente feliz. Estávamos ambos felizes e idiotas, como as crianças. O Ciccio me ligou bem no meio da bebedeira e o Rey quis atender, ficamos rindo no telefone e falando coisas absolutamente fora da realidade, até que Ciccio se irritou e desligou. Nessa hora eu já estava com o telefone na privada.
Após o banho, eu subi e nós trepamos, então descemos para tomar café. Eu fui para a editora e ele para a casa dele.
Se não me falha a memória, esse foi o dia da puta. Antes de irmos para casa estivemos bebendo numa galeria no Centro de São Paulo, em frente a um Bingo – se não for fachada –, e lá estava essa garota. Bom, resolvemos que ela era uma puta, embora também pudesse se passar por uma religiosa, dessas que se refugiam na religião e buscam o 'senhor' para não cair "na vida". Devia ter seus 24 anos e algo bastante sexual exalava de sua pessoa. Trajava uma saia rosa meio apertada, uma blusa branca, meia-calça cor da pele, e calçava sapatos de salto alto. Um tipo que Bukowski iria adorar. Estava bem maquiada e tinha um cabelão dourado chegando na cintura. O Rey disse que ela tinha um modo meio diferente de olhar. Acho que era um olhar que convidava a pecar. Com um aviso bastante claro: aqui se cobra. Talvez a gente tenha exagerado nas conclusões, mas o fato é que ela passou por nós e sentou-se na mesa de trás, cruzando as pernas. Parecia que esperava alguém, porque balançava os pés com impaciência. O Rey foi tentar acender o cigarro com ela. Acabou ganhando um isqueiro novinho em folha, desses que você levanta a tampa e o fogo logo surge, como um vulcão em chamas; se não tomar cuidado, acaba queimando os pelinhos do nariz. Estava até na caixinha. Depois de uma meia hora balançando o pé, ela se levantou e entrou no Bingo. Lá se foi a nossa diversão. Minha cabeça já estava ficando grande e a minha bexiga cheia. Resolvi usar o banheiro do Bingo. Lá dentro havia pouca luz e algumas garotas de uniforme. Perguntei para uma, com cara de diarréia, onde ficava o banheiro. Me apontou o banheiro dos deficientes. Não discuti, mesmo não tendo nenhum problema físico. Pelo menos era grande e estava limpo. Muita cerveja igual muita urina, portanto eu não estava nem na metade quando bateram na porta aos murros e um sotaque nordestino de mulher disse que já iam fechar. Não respondi e terminei o que estava fazendo. Depois usei o espelho. Quando eu abri a porta, umas dez caras de ódio estavam do lado de fora, me espreitando. Dei uma olhada ao redor e não enxerguei a garota em lugar nenhum. Não fiquei com vontade de agradecer pelo banheiro e saí. Logo em seguida fecharam as portas, um negro forte com uniforme de segurança. Lugar estranho aquele.
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03:56 pm - Take 48 Uma noite eu estava na rodoviária Tietê e liguei para ele perguntando se eu poderia telefonar quando chegasse em casa. A lua estava cheia no céu e a noite quente. Dei quinze centavos a um mendigo e ele me devolveu, disse que só aceitava esmolas acima de um real. As pessoas na fila do ônibus ficaram indignadas e eu peguei os meus quinze centavos de volta, era tudo o que eu tinha. Era um mendigo orgulhoso, mas talvez ele estivesse certo. Eu também tenho vontade de devolver o meu salário para o meu chefe todo começo de mês – imagino que seja um almoço dele –, só que não tenho esse orgulho todo e aceito as esmolas. Era quase onze horas e eu disse que só chegaria em casa por volta de onze e meia. Ele disse que tudo bem. Cheguei em casa e liguei. Vejam como a vida é simples. Conversamos por um bom tempo enquanto a minha gata, sempre no cio, acabava com o seu macho no telhado. Perguntei se ele estava ouvindo, mas não estava. Aproveitou a deixa para dizer que eu também sou uma gata no cio, e que tenho a personalidade dos gatos, porque eu "gosto de ficar isolada no meu quarto lá fora". Verdade. Uma hora disse que eu estava miando. Hum. Falei para ele que havia escrito uma história e que em um dos capítulos eu falava dele. Interessou-se em ler – tive que mudar umas coisinhas – e me passou o e-mail. Assim, passamos a nos falar por e-mail freqüentemente. E ele me ligou uma noite e eu não fui vê-lo. Não podia, não estava preparada. Também não tinha dinheiro e estava com gases. Escrevi pedindo desculpas, e foi aí que ele me falou – alguns dias depois – que acabou nem saindo nesse dia, e então se desculpou pela demora em me responder o meu e-mail. Disse que estava em Santos, com a namorada, e que "tudo bem, porque ele não queria machucar ninguém e ia continuar com ela". Entendi que ele ficou meio ressabiado, mas talvez ele estivesse apenas sendo sincero. Se eu tivesse acreditado nisso, teria evitado os danos e ficado só com os ganhos. Mas eu sempre distorço a verdade. Não que eu goste de mentiras, mas a realidade é uma merda completa, às vezes, então eu vivo de pequenos sonhos. Sonhos que eu vou emendando uns nos outros, como retalhos, até que tomam uma proporção inimaginável. Sou uma grande sonhadora. Talvez a minha vida não passe de uma grande colcha de retalhos.
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03:55 pm - Take 47 Procurei guardá-lo – como fazemos com as bailarinas das caixinhas de música que param de dançar quando a corda acaba – e continuar a minha vida. Fiquei com outras pessoas, até mesmo com o meu ex-namorado – com quem eu quase voltei, por razões que não me são claras agora –, mudei de emprego – saí da maldita faculdade para a editora –, e numa bela tarde cinzenta o meu celular tocou. Quando eu desliguei o telefone, fui direto para o banheiro, dor de barriga.
– Alô.
Meus "alôs" são geralmente enfadonhos e cansados; curtos e secos. Isso serve para desencorajar a pessoa que está do outro lado da linha a me encher mais o saco, porque ele já está sempre suficientemente cheio.
– Alô, Anne?
Hum. Voz de homem. Não reconheci, mas milhares de coisas passaram pela minha cabeça: favores sexuais, empréstimo de dinheiro, cobranças do banco, resgate, FBI...
– É.
– Aqui é o Rey...
Achei que não tinha lavado o ouvido direito nesse dia.
– Rey???!!!
Uma pergunta estúpida.
– É... sabe quem é?
Outra pergunta estúpida!
– Bom, eu só conheço um Rey...
– Então, sou eu.
Por que não?
– Ahnnn.... tudo bom?
– Tudo, você está ocupada?
Realmente não, mas eu queria encurtar a minha série de monossílabas, gaguejos e grunhidos estranhos... Você é mulher ou um rato?
– Mais ou menos, mas como você conseguiu o meu telefone?
Rato cinza de esgoto. O que me interessava como ele havia conseguido o meu telefone?
Disse que conseguiu com o meu ex-namorado, que depois me ligou e pediu desculpas. Tá desculpado, querido. Um beijo. Rey disse para ele que queria ver umas fotos – que eu havia feito da banda dele naquele dia em que ele acabou dormindo – bem, essa não é exatamente a palavra – no chão do meu quarto.
– Fiz mal?
Porra nenhuma!
– Não, eu só estou surpresa... eu não esperava que você fosse me ligar e...
Vamos lá, Anne, você tem tantas coisas legais para falar... Fale uma. Uminha que seja. Não destrua a sua vida assim. Desculpe, senhor, foi engano. Tutututututu...
Absolutamente patética. Só consegui pegar o telefone dele e passar o da minha casa. Levou muito tempo até que ele visse as tais fotos. Nem ficaram boas.
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03:53 pm - Take 46 Então ele se foi. Tão rápido quanto veio. Mas a camisinha ainda ficou lá, jogada no chão do meu quarto, perto da parede vermelha, por dias e dias e dias. Criando vida, criando mofo, criando teia e um monte de seres estranhos. Até que eu decidi jogá-la no lixo e jogar junto o pouco que ele me deixou – aquele resto de porra fermentada.
Não sei se alguma vez eu fui mais feliz. Provavelmente. Apenas não me lembro agora. Mas a verdade é que enquanto ele me fodia, eu sorria. Sorria para mim, sem, contudo, me importar que ele visse. Eu sorria de boca inteira, sorria de mostrar todos os dentes, quase chorando, quase acreditando em deus: obrigada, senhor, por esta foda. Sei lá, eu simplesmente olhei para ele um dia – lá, atrás daquela bateria – e nunca mais o esqueci. Nunca mesmo. Acho que foi isso. Nenhuma explicação mística ou filosófica. O que eu posso dizer é que a vida deu voltas e mais voltas e que ele acabou no chão do meu quarto. E eu nem liguei que ele tinha namorada. Eu não liguei para nada. Não me importei com o fato de que ele brochou com a camisinha e que me fodeu com o pau meio mole. Eu só lembro que eu desci e enfiei o pau dele – um pau que não é pequeno – inteiro na minha boca. Eu queria simplesmente engoli-lo, e foi assim que ele gozou. E eu sorri. Depois ele me chupou e fazia uma coisa engraçada, ele molhava o dedo com a saliva e colocava em mim, até o fundo.
Já era de manhã, umas seis e meia, mais ou menos, porque dava para ouvir os pássaros cantando e os aviões passando, bem ao lado da minha janela. O chão não estava muito confortável, mesmo sobre o acolchoado velho, mesmo sobre os travesseiros, e tapamos a claridade que vinha da janela com um cobertor, que ficou todo troncho e não adiantou muito, já que o sol estava nascendo bem de cara para nós. De qualquer forma, eu estava no céu. Dormimos ouvindo Nico – que ele escolheu.
Meu quarto lá fora. Meu quarto tinha acabado de ser reformado, perdendo para sempre minhas memórias adolescentes registradas em todas as fotos e paredes pichadas. Joguei tudo fora, incluindo móveis, e não restou nada ali além do aparelho de som que eu ganhei quando fiz 15 anos, meus discos, livros, umas fotos, um pedaço de estante e uma mesa de madeira antiga com uma marca de ferro de passar roupa em cima. Acho que ele não achou tanta graça assim, passado o efeito do álcool – havíamos virado a noite toda bebendo no bar onde ele tocou –, quando acordou no chão, algumas horas depois. Eu continuava no céu, havia dormido sobre uma nuvem fofinha e macia, ouvindo anjos e demônios a cantar e me embalar numa doce melodia e... Bem, na verdade, eu não havia dormido, fiquei naquele estado de semiconsciência em que você simplesmente não sabe se está sonhando ou se está acordado e tudo se confunde e parece mágica. Assim que despertamos eu coloquei um som e mostrei umas fotos para ele, que disse que era legal e tudo, mas tinha que ir. Pois então vá logo. Suma. Desapareça das minhas vistas antes que seja tarde demais. Mas já era tarde.
Ainda conversamos sobre o que falar para a minha mãe e o meu pai, que não foram avisados de nada, sobre o que aquele cara – que eles nunca viram mais magro – estaria fazendo ali. Era óbvio demais, porra, mas, de qualquer forma, ele viraria um amigo. Um amigo, oras. E ele disse: "se bem que eu não tô muito com cara de amigo, né..." É. Então nós descemos a escada estreita que dá na lavanderia e eu o adverti para tomar cuidado porque o chão poderia estar molhado. Lá de cima dava para ouvir uma bateria de samba – a máquina de lavar velha da minha mãe, em perfeito estado, batendo roupa em pleno domingo.
– Oi, mãe, este é o Rey.
Eis tudo.
O meu pai, uma pessoa geralmente simpática, muito mais simpático à presença de estranhos, ofereceu um suco de laranja para ele, que só disse algo como: "ET, telefone, minha casa". Hahaha. Céus, ele era engraçado.
Levei-o até o ponto e falamos sobre os aviões que passam rasgando o telhado. Contei sobre o avião que caiu bem próximo à minha casa, uma vez, e que matou um monte de gente. Formou-se uma bola de fogo no céu, lembro-me perfeitamente. Eu era uma criança almoçando e de repente ouço o barulho de uma bomba explodindo e a luz acaba. Fiquei contente por não ter que ir à escola nesse dia. Nem terminei de comer a carne moída. O céu ficou cheio de uma fumaça preta e densa.
Lá no ponto ele me deu um beijo, com aquela língua se movimentando dentro da minha boca sem muito envolvimento, e então pegou o primeiro ônibus que passou. O primeiro. Ele só disse: "a gente se vê". A gente se vê! De repente todas as fichas caíram e eu fiquei enterrada, bem debaixo delas. Aí está: Anne, a grande fodedora. Come os homens que quer – as mulheres são mais seletivas – e nem pede o telefone. Tchau, amor, foi só isso. Já pode ir agora. Talvez a gente se encontre por aí, numa dessas esquinas fedorentas de São Paulo. Tchau. Eles ajoelham e beijam seus pés. Imploram por uma próxima vez. Ela sorri enigmática. Isso foi um sim ou um não?
Subiu os degraus do ônibus, com aquela Jaguar nas costas, e foi embora. Para sempre, eu pensava. "A gente se vê". Nunca mais o procurei em lugar nenhum. Se o visse caído numa sarjeta, cuspiria. Ninguém deixa de pedir o telefone de Anne Díaz, uma puta pessoa legal. Vai ver se esqueceu. É isso. Se eu o encontrar na sarjeta, terei cartões personalizados com o telefone da minha casa e o meu celular anotados. Anne Díaz, caso você tenha se esquecido, babaca!
Os homens conseguem ser todos uns grandes filhos da puta. Mas só as mulheres, quando dão para ser filhas da puta, conseguem ser ainda piores.
Depois que ele se foi, eu peguei a minha máquina e tirei umas fotos lá no quarto. Eu ainda estava com a roupa da noite anterior e a minha maquiagem estava borrada. A camisinha usada aparece numa delas. Registro histórico. Na minha mão, escrevi "No Luv" com um lápis de olho preto e depois esfreguei, de modo que ficasse manchado. Porque sim. Pensei em derramar umas lagriminhas, mas achei melhor dormir a tarde toda, sem banho e sem almoço. Não fiz nada que pudesse alterar aquele cheiro, grudado bem na ponta do meu nariz.
Meu pai disse que ele saiu correndo porque eu o coloquei para dormir no chão. Eu não creio nisso, embora não descarte a hipótese.
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03:52 pm - Take 45 Eu sempre acho as músicas muito curtas. Vai ver é por isso que a minha vida é um eterno "repeat". Quando eu penso nisso, tenho vontade de sair correndo sem nunca olhar para trás. Olhar para trás é pura perda de tempo. O que acontece é que eu simplesmente não consigo parar de ouvir essa porra dessa música. Porque no fim, ela sou eu.
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02:11 am - PARTE II Rey – os primeiros dias do resto do meu amor
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01:49 am - Take 44 Sábado. "Eu não vou sair este final de semana".
Fui tirar a sobrancelha, portanto. Não havia nada melhor para fazer.
Passei a tarde toda num salãozinho de bairro. Ia demorar para chegar a minha vez, já que mais duas desocupadas estavam por lá, para fazer cabelo, pés e mãos, e mais a maquiagem. Tinham um casamento para ir. Nem liguei para a demora. Esperei, esperei e esperei. Eu e a minha tia. Não havia nada para fazer mesmo. Fumei muitos cigarros. Folheei revistas de fofocas e revistas para adolescentes debilóides. Revistas cheias de cabelo dos outros. O horror!
Eu a minha tia cansamos e fomos até o supermercado comprar tinta de cabelo, chocolate, cerveja e pó descolorante. Não reparei que a minha bolsa estava aberta. Minha bolsa é grande e parece um saco de lixo. O segurança me chamou a atenção, achei que fosse só para fechá-la, mas depois ele quis lacrar a minha bolsa com um saco plástico. Eu perguntei como faria para pegar o dinheiro na hora de pagar, e ele disse que era só levar lá de novo. Aquilo me indignou e eu arranquei a bolsa da mão dele e fui a outro mercado. Ninguém nunca quis lacrar a minha bolsa antes, nem quando eu tive real intenção de roubar alguma coisa. A minha tia disse que é por isso que ela queria andar armada. Eu nunca duvidei da minha tia, ela já quis dar para o cara que assaltou o seu local de trabalho, lhe encostando um revólver na barriga.
Fomos a outro supermercado; deixaram a mim e à minha bolsa-saco-de-lixo em paz; compramos o que precisávamos, tomamos sorvete, e quando voltamos ao salão tivemos que esperar mais um pouco. Ainda me restava alguma paciência, "é só um sábado sem nada para fazer mesmo".
A minha tia começou a fazer as unhas. A essas alturas eu já tinha perdido toda a compostura e estava com os dois pés em cima do sofá, fumando e folheando revistas cheias de múmias famosas. O cabeleireiro ficava me olhando, um velho narigudo horroroso. Acho que ele não está acostumado com pessoas reais. E a cada cutícula mal arrancada, minha tia xingava a mãe da manicure. Eu continuei afundada no sofá.
Quase sete horas da noite a senhora cabeleireira terminou aquelas duas. Elas eram bem difíceis de se arrumar e não dá para dizer que saíram de lá bonitas, mas com certeza bem melhor do que entraram. Uma, quando abria um olho fechava o outro. Parecia combinado. A outra, deviam ser parentes, tinha a cara toda marcada de espinhas, que continuaram a aparecer mesmo depois de todo o reboque. Sem falar naqueles penteados. O que era aquilo? Pareciam cachos de uva despencando da cabeça. Poodles pobres, que não podem ser tosados ou cuidados por veterinárias japonesas.
Na minha formatura da oitava série eu também saí do salão parecendo um poodle pobre. Aquele cabelo não era bem o que eu havia imaginado. O cabeleireiro que cortou o meu cabelo durante toda a minha vida até ali, não servia, na verdade, nem para aparar cabelo de ânus. Saí do salão chorando de raiva e quando cheguei em casa desmanchei todo o meu penteado. Fui para a formatura com um cabelo desfeito, que no fim das contas não era nem uma coisa nem outra, se parecia mais com um ninho de rato. Naquela época, eu ainda não fazia a sobrancelha, que eram duas taturanas na minha cara. E para completar, a maquiagem foi a minha tia Abila quem fez. Fiquei exatamente com a cara dessas prostitutas do interior, só que metida num vestido de princesa alugado. Foi a primeira e última formatura da qual participei na vida.
Minha vez. Agora, sim, eu já estava irritada e com vontade de chutar a bacia de água da manicure na cara da cabeleireira. A minha tia chama ela de "Alê", devido ao aleijo na perna. Acho que uma é bem mais curta que a outra. Então eu também chamo ela de "Alê", mas não falamos isso pra ela.
Mostrei para Alê como eu queria a sobrancelha. Quando ela me mostrou o resultado, eu já estava descrente na humanidade. Disse que havia ficado boa, "está ótimo", pois eu não queria mais a mão dela na minha cara. Tenho azar com cabeleireiros, acho que é karma. Por mim, eu teria pego uma gilete e terminado de raspar o resto. Ficaria algo meio Ziggy Stardust e eu então poderia dizer que tinha sido de propósito, questão de gosto, e não que uma cabeleireira suburbana tinha feito aquela merda. Depois ela foi para a franja. Eu já estava cagada mesmo. Eu disse: só um dedo. Ela pegou a tesoura e já foi cortando. "Não vai molhar?" "Não, é melhor a seco". Certo. Ela até que conseguiu tirar um dedo, só que a minha franja estava desfiada e ela cortou reto. Disse que eu devia voltar a usá-la reta, que era mais estiloso. Não concordei com ela e continuei olhando para o espelho. Ela não sabia desfiar franjas. Pegou uma navalha. Eu insisti que tinha que ser com a tesoura, mas ela não me ouviu. Quando ela começou um lado, eu já mandei parar e fui dando sinal de levantar. Estava feita a segunda grande merda. Mas até que não ficou tão mau. Ficou completamente sem noção. Os modernos adoram, eu odeio modernos.
Minha tia pagou pra ela, eu que não ia pagar aquela bosta, e fomos embora. Arrancamos com o carro e paramos na casa da minha avó. Estava começando uma tempestade. Meu avô, que estava encostado na parede terminando de ver a vida passar, perguntou se o "passeio" tinha sido bom. Oh, sim, maravilhoso, vovô. Um senhor passeio! O meu avô é um sujeito de poucas palavras. Branco, alto, de olhos esverdeados e cabelos pretos – os cabelos dele nunca ficaram brancos realmente, exceto por uns poucos fios –, faz parte de uma gama de gente rosada do interior. Ele nasceu no interior de São Paulo, mas no fim da vida a minha avó o obriga a viver no concreto, e então ele passa os dias assim, no quintal, encostado na parede, olhando pra ontem. Eu nunca fui muito com as fuças dessa minha avó. Ela chutou o rabo do meu pai depois que ele deixou a barba crescer e resolveu não ir mais à igreja.
Meu cu começou a coçar. "Hoje é sábado". E daí? "Eu não vou ficar em casa num sábado à noite". Liguei para o Ciccio. Decidimos sair. Ele me avisou que aqueles caras de Curitiba, amigos meus e da Kate, estavam na cidade. Aqueles da nossa viagem, os mesmos. Ótimo. "Eu que não vou ficar em casa", pensei. E também estavam na cidade uns caras do Sul, que eu havia conhecido no meu aniversário. Foi o suficiente para eu me animar. Pessoas novas. Porque a mesmice e os pessimistas já tinham me dado no saco. E eu sequer tenho um.
Estava chovendo muito e eu não pude ir logo para casa. Quase nove horas da noite. Comecei a clarear uns pêlos com água oxigenada. Não agüentei, coçava muito e eu fui tirar. Minha tia se divertia com uma novelinha mexicana ridícula. Eu não estava prestando muita atenção, mas até onde pude perceber, ela queria que a mocinha morresse e torcia pela vilã. Eu adoro a minha tia. Ela simplesmente não tem uma porra de um neurônio naquela cabeça oca dela.
Pedi que abrisse o portão. Ela mandou eu esperar a propaganda. Esperei dois segundos e pedi de novo. Ela me xingou e foi abrir. Quando eu quero ir embora de um lugar, eu tenho que ir. Na hora que eu quero.
Assim que cheguei em casa, comuniquei à minha mãe que eu ia sair. Ela fez aquela mesma cara de desgosto que ela faz desde os meus quinze anos, quando eu comecei a passar as noites fora de casa. A minha mãe quer todos os filhos debaixo das asas dela. Até quando, bem, eu não sei.
Fui para o banho. Nem deu tempo de tingir o cabelo, já estava tarde.
Depois, enquanto eu tentava achar uma roupa, o celular tocou. Era o Rey. Eu não estava para brincadeiras com ele. Perguntou o que eu ia fazer. Eu disse que ia para a Funhouse. Ele ficou quieto. Tudo bem, perguntei se ele estava afim de ir. Estava. Uma carona? Certo. Eu geralmente não sei ser muito filha da puta com alguém que eu gosto, ou gostei, ou sei lá que porra.
Uma hora depois, eu continuava em frente ao espelho. O celular tocou de novo. Era ele, combinando um horário. Onze e meia no Tatuapé. Falei para o Ciccio que eu não ia levar a Kate comigo. Amor e ódio. Acho que ele ficou meio bravo e foi com ela. Tudo bem.
Já estava chegando no Tatuapé quando o Rey me ligou de novo.
– Onde você está?
– Estou chegando, por quê?
– Eu já cheguei.
– Tá bom.
– Tchau.
– Tchau.
Quando cheguei ele não estava, mas logo apareceu, com uma garrafinha de água na mão. Ressaca. O filho da puta vive de ressaca. Me deu um beijo e foi contando as suas últimas peripécias. Eu gosto que ele me conte coisas. Gosto de pessoas que falam. Gosto mais ainda das que não falam. Depende do dia.
Estava com cara de limpo. Havia tomado banho, lavado o cabelo e tudo. Achei que ele estava bem, inclusive seu estado de espírito parecia melhor desde que a namorada lhe chutou o rabo. Mas isso não é da minha conta.
Eu senti umas energias fluindo entre a gente. É engraçado o quanto isso fica perceptível, mas eu não estava indo lá no bar para ficar com ele. Eu já estava indo, quando ele me ligou, talvez na intenção de ficar com alguém. Nunca se sabe.
Pelo menos uma vez por semana eu tenho que parar para desencanar dele. Daí eu choro, fico triste, tenho raiva, mordo o cotovelo, e passa. Ele não sabe de nada disso. Imagino que não, porque homens são burros, ou se fazem de. Eu estava num dia em que eu não me importaria com nada que ele fizesse, porque ele já tinha me feito chorar na semana anterior, e eu não ia mais chorar. Não eu.
Eu sei que ele fica com outras por aí. Desde que eu não veja, e que elas não sejam importantes pra ele, eu não ligo muito. Portanto fui ouvindo sobre a garota que dormiu num colchão perto dele, na casa de uns amigos. Quando ele acordou, disse que ela estava com as pernas abertas, quase dando pra ele. Deixou pra lá.
Percebi ele meio inclinado a ficar comigo. Mas basta ceder uma vez para eu me foder para sempre. É isso o que acontece, porque de uma forma ou de outra, eu sempre acabo envolvida com ele. Fiquei na minha.
Na porta do bar, encontramos o único responsável por termos nos conhecido. Aquele cara do Sul, que tinha uma banda na qual ele tocava bateria. Um equívoco.
Rey parou para conversar com ele e disse:
– Esta é a Anne.
Ele me deu a mão e disse "oi, Anne". Nós já nos conhecíamos, mas ele fez que não. Senti um certo ressentimento. Uma vez ele me chamou de idiota por não querer mais ficar com ele. Posso ser idiota por muitas coisas, mas certamente essa não é uma delas.
Eu e o Rey saímos para comprar filme para a minha máquina. As ruas estavam repletas de prostitutas. Muita bunda, muito peito e caras horrendas, mas ninguém quer saber das caras mesmo. Encontramos umas amigas no metrô e paramos num bar para tomar umas cervejas. Nada muito divertido. Umas putas entravam e saíam, todas com o rabo, ou os peitos, ou tudo de fora. Uma e pouco fomos para a Funhouse.
A Kate estava lá. Essa filha puta de novo. Encontrei o pessoal de Curitiba. Todos estavam por lá. Copos começaram a chegar. Copos de vodca e cerveja por todos os lados. Sentei no sofá com a Kate e o Ciccio, comecei a beber. Ela estava sem o namorado. Andou namorando aquele sujeito que nos derrubou na Lôca uma vez, mas ele não comia ela, então acho que ela resolveu sair sozinha para "espairecer" (aka: dar). Fui andar, eu precisava ver pessoas. O Rey? Eu não sabia por onde ele andava. Nem queria saber, porque o bar estava cheio de gente e tudo pode acontecer, principalmente quando estamos sozinhos e não seguimos o nosso estúpido coração, porque ele sempre nos fode. Sempre, sempre. Então eu não queria saber do Rey. Aqueles caras do Sul estavam lá. O nome da banda deles parece que é uma gíria regional, não sei. Uma vez um dos caras me agarrou e me deu um beijo, e eu só não fiquei com ele porque eu estava com o Rey - veja quanta consideração eu tinha...
Dessa vez o cara estava com uma garota. Eu não sei se ele me viu, exceto quando eu o agarrei pelo pescoço e tasquei-lhe um beijo. E eu já tinha beijado outras pessoas. Eu beijei muitas pessoas, porque todos pareciam de repente tão bonitos e tão legais e agradáveis e eu já estava cansada de ficar presa a um sentimento que nunca me levou a nada. No fim, gostar de alguém quando isso não é recíproco não passa de sofrimento e tortura. Minha única vantagem é que raramente eu sinto pena de mim mesma. A pena é um sentimento menor, que não muda nada. Então eu vou lá e simplesmente acabo com tudo de uma vez. A gente – eu e o Rey – passou da hora de acontecer. Dói, mas é preciso encarar os fatos. De frente. E dói.
Eu parei na escada e fiquei observando o movimento. Os grupinhos pareciam animados. Eu não gosto de grupinhos. A Kate veio descendo, sempre de copo na mão. Brequei ela e lhe pedi um beijo. Não foi um pedido como quem mendiga. Eu sabia que isso ia acontecer. Porque isso sempre acaba acontecendo. Não vou mais explicar.
Ela disse:
– Me avisa quando for para parar.
Mas nós não paramos.
Eu senti falta dos beijos dela. Falta do nosso encaixe. Eu disse para ela que ainda pensava nos nossos beijos. Ela disse que sempre pensava nisso.
Mais ou menos o bar parou. Parou para observar o nosso amor que vai e volta. O problema todo é que ela não acredita nele. O problema é que ela não acredita no amor. E eu não acredito nela. Daí veio aquele cara, o baterista, e entrou no meio. Isso já havia acontecido antes.
O show começou. O show fomos nós. Ninguém parava mais em pé e eu subia nas costas do meu amigo baterista e ele me rodava, e de vez em quando todo mundo caía no chão. E todo mundo se beijava. Nós gostamos disso. Eu aproveitei para beijar aquele outro cara também, que deixou a namorada em sua cidade natal e estava lindo e no cantinho. Não foi possível resistir. Pedi para a Kate ir buscá-lo, afinal, ela já havia ficado com ele, que me pareceu feliz ao ser incluso na roda. Lá estávamos eu e a Kate juntas de novo.
Naquele momento eu não pensava no quanto tudo isso é uma grande ilusão. Mas a vida toda é uma ilusão. Até a morte é uma ilusão. Ou talvez seja a única coisa real.
Ganhei sexo oral do baterista. No banheiro e na frente de todos – numa das vezes em que fomos parar no chão. Eu até tentava empurrar aquela cabeça, mas ele era muito mais forte que eu. Estupro. Ele é selvagem e louco. Eu gosto das pessoas loucas. Aliás, ando me questionando bastante sobre a minha sanidade. Talvez eu procure um hospício.
O Rey estava beijando uma garota que parecia alemã. Apelidamos ela de Chucrutes.
Num dado momento, estávamos todos dançando ao som da jukebox, no andar de cima. Eu estava nas costas do baterista e ele estava me rodando. De repente eu levei uma pancada e fomos parar todos no chão. Era o Rey. Parecia que tinha caído do céu diretamente sobre a minha cabeça. A minha boca ficou cheia de sangue. Ele estava bêbado também, e acho que estava com ciúmes. Ele me bateu. Não que ele fosse morrer por me ver ali, com o baterista, eu já tinha ficado com tanta gente durante a noite, mas então ele resolveu me bater. Ele me bateu e depois pediu desculpas. E, na hora, eu não achei que tivesse sido intencional, mas o meu amigo Ciccio disse que foi. O Rey disse para ele:
– Eu vou lá acabar com essa festa!
E todo mundo botou pilha. A Kate foi grande incentivadora, porque merda é com ela mesmo.
Lavei a boca e continuei a minha noite, ninguém ia acabar com ela. E, além disso, o álcool funciona como anestésico.
Acabei a noite com um dos caras de Curitiba . Ele me chamou para ir ao hotel, mas eu não podia. Aquele corpo magro e forte, cheio de lugares para se perder, estava me matando, mas eu não podia. Era um cara legal.
Lá no estacionamento, eu consegui chegar até o carro. Estava todo mundo olhando para a minha cara, como se eu não fosse conseguir sair dali. Abaixei a cabeça no volante e comecei a dar risada, estava mesmo a ponto de cair. Entrou todo mundo no carro. A Kate já foi logo sentando o rabo na frente. Mas quem vai comigo na frente é o Rey, por isso pedi para ela chamá-lo. Foram os dois, ela no colo dele. Larguei ela e o Ciccio na Paulista, eles ainda iam para uma outra balada. Fiquei de ir em casa, deixar o carro, e voltar de ônibus para encontrá-los. É óbvio que isso não aconteceu. Deixei mais duas conhecidas no metrô, e então eu fui levar o Rey. Ele se convidou para ir para a minha casa. Não havia a menor possibilidade disso acontecer. Porque não. E lá, em frente à casa dele, nós demos um beijo. Porque esse beijo era para ter sido dado no começo da noite, só que não aconteceu. Foi bom o beijo. Nossos beijos costumam ser bons. Eu com a minha boca toda fodida e ele com um corte na cara, que eu pensei que fosse sangue meu, mas não era. Desceu e foi embora. Adeus.
Consegui chegar viva em casa, mas no dia seguinte eu não me lembrava como. E o celular ainda tocou, era o baterista. Eu disse que já tinha morrido, que já estava na cama. Ele me mandou um beijo e pediu para ligar ou escrever ou sei lá o quê. Fiquei pensando naqueles metros de língua no meio das minhas pernas. E de repente o quis de volta.
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Na terça-feira o Rey me ligou, meia-noite e meia. Eu estava muito ocupada, no meu quarto lá fora, ouvindo um som e colando uma roupinha de papai noel numa fotinho do Bukowski – era o flyer de final de ano da Funhouse. Ficou bem engraçado até. Bukowski com aquela pançona obscena e uma garrafa de cerveja na mão. E junto dele uma amiga muito parecida com essas putas de cinco reais. Desconfio que ela não tinha dentes. É uma foto famosa.
Falei para o Rey que eu estava fazendo exatamente isso, colando uma roupa de papai noel no Bukowski, e ele achou graça. Então disse que estava me ligando porque estava passando uma entrevista com a Clarisse Linspector na tevê. Uma de 1977, se não me engano, e ele estava achando legal, disse que ela era "meio louca". Falava com os olhos vidrados. Pausada. Visitando o seu interior impacientemente, com um braço paralisado, quase achando o entrevistador um completo imbecil. Quase. Havia uma grande distância entre eles e ela não parecia querer se aproximar. Em seguida, o Rey me perguntou se ela já havia morrido. "Já". Lembrei vagamente de uma semana em homenagem a ela na faculdade.
Ficamos nos falando mais um pouco. Ele disse que a Chucrutes havia ligado para ele, convidando-o para assistir uns filmes na casa dela, ele podia levar uns amigos. Rey disse que me levaria, eu disse que ela queria que ele fosse lá fodê-la, ele sabia, mas não estava afim. "Ela é meio gordinha", disse. Mas foi ele quem a beijou e deu o telefone pra ela. Há algo de errado nas relações macho/fêmea. Qualquer velho pançudo decadente é capaz de conseguir uma mulher bonita e jovem – e nem precisa ter dinheiro. Qualquer imbecil se dá o direito de dizer: eu não vou comê-la porque "ela é gordinha". Mas as mulheres aceitam os carecas, os pançudos, os paus que não levantam, os desdentados, os caras que não tomam banho, os maiores filhos da puta do mundo! Mulheres deveriam ser mais seletivas, menos afetivas. Chutar mais o rabo desses filhos da puta.
Seja como for, eu pensei que ela o tivesse agarrado. Então eu falei para o Rey, em tom de brincadeira, que eu deveria ter lhe dado uma porrada. E ele disse que, nesse caso, ele também deveria ter dado uma porrada na Kate e no baterista tarado. Mas foi em mim que ele bateu. Quando desligamos, me mandou um beijo. Ele só me manda beijo quando eu falo coisas que ele gosta de ouvir.
Fui até a sala e assisti o final da entrevista.
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Rey andou sumido. Eu sei onde ele estava. Daí ele volta e me liga. Mas eu escrevi em algum lugar que dessa vez ele não seria mais tão bem-vindo. Não. Não mais "hi, hello, how are you". Nada disso.
Tentou falar comigo na terça e na quarta. Eu não atendi nenhum telefonema. Não queria falar com nenhum filho da puta. Ele tem que saber que eu não vou estar sempre disponível. Não mais. Porque um dia eu fui dele. De verdade. Praticamente só dele e de mais ninguém. Para mim ele estava acima dos outros, de todos os outros, mas ele não entendeu isso. Ele quer a puta. Porque a puta não tem sentimentos, exceto quando beija na boca. Exceto quando dá e não cobra. Não cobra nada. Nem fidelidade nem porra nenhuma. Eu nunca cobrei nada. Por isso, só posso pensar que ele é muito covarde, canalha, ou então que eu não valho nada.
Eu tinha acabado de sair do banho quando me passaram o telefone.
– Alô.
– Alô, Anne?
– Manda.
Ele deu risada.
– E aí, fugitiva!
– Por que fugitiva?
– Estou tentando falar com você há três dias.
– Ah.
– Então, tem alguma coisa legal para fazer esses dias?
– Nada.
Silêncio. O que ele queria que eu falasse?
– Ah, então, tá... o que você andou fazendo esses dias?
– Nada de mais, fiquei por aqui.
– E aí, já acabaram as suas aulas, passou de ano, já ganhou presente do papai noel?
Eu não estava muito afim de suas piadas, portanto não fui irônica, mas ele ficava rindo meio retardado.
– Já acabaram, passei, ganhei um pinto de chocolate, já comi tudo, mas dei uma bola para a minha amiga.
Risos.
– Tinha creme de leite dentro?
– Leite condensado, parecia porra mesmo.
Ele deu risada e eu resolvi falar mais um pouco.
– Domingo eu fui num show de rockabilly; alguns Elvis estavam por lá, eles sacavam pentes e começavam a pentear seus topetes no meio do bar e falavam "hey, baby". Uns tipos James Dean também deram as caras.
– E as meninas estavam todas de saias?
– É, mas elas eram meio peso-pesado.
Ele deu risada e acho que tomou coragem – só porque eu comecei a falar já achou que eu queria vê-lo também.
– Eu estava afim de sair, tomar umas brejas, você não tá afim?
– Não.
– Vai ficar aí entocada então?
– Vou, tô fazendo outras coisas.
– Você está escrevendo?
– Estou, e tirando umas fotos também.
– Ah, então tá.
– Outro dia a gente sai.
– Tá, até mais.
– Tchau.
– Tchau.
Não me mandou beijo. Me senti mais leve depois que desligamos.
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01:45 am - Take 43 Uma de suas milhares de bandas ia tocar na Funhouse. Tentei me convencer de que esse seria o último lugar do mundo em que eu colocaria os meus pés. Assim, saí para beber com o Ciccio e o André. Fizemos programa de mendigo, ficar bebendo numa praça. Tudo bem, estava super engraçado, só que depois cansou. Chegamos lá na Funhouse completamente entorpecidos. Não foi um acidente, ter ido parar lá. Pouco tempo depois de termos entrado, eu desmaiei, bêbada, o André derrubou a porta da adega do bar, ficando proibido de voltar a pisar lá, e o Ciccio foi embora. Mais ou menos assim, como eu descrevi para o João numa carta:
A Vida Fodida dos Anjos
Anne, 23 anos nas costas, bebendo na praça. Vodca de três reais e cinqüenta centavos. Anne entornando veneno na praça, junto com as baratas e os ratos (criaturas adoráveis, se comparadas ao homem). Uma garrafa inteira dessa merda para poder suportar a balada da vida. Uma garrafa para afogar as mágoas e as fodas mal dadas. Putas e travestis vêm pedir cigarro e pegar um trago. Todos atrás de algo que não tem nome. A noite engolindo um por um, os seus filhos degenerados e perdidos, que deveriam estar dormindo em camas quentinhas, coração cheio. Anne na praça achando tudo engraçado. "Quer um trago?" Os bombeiros também querem um trago. Eles não estão em casa com suas mulheres gordas e acabadas, carregando no ventre a única coisa que eles puderam dar. Anne na praça, rolando no chão com os veados e tentando sobreviver. Já são quase três horas, procura um lugar onde possa entrar e dançar. Acaba no mesmo de sempre e tenta achar alguma graça. Nenhuma graça, mas foda-se. Abraça as pessoas e vai direto para o chão. De repente é o seu lugar. No chão se sente em casa. Lar-doce-lar. "Quer beber?", alguém pergunta. Claro que quer, tanto faz. O demônio sorri com todos os dentes. Só quer esquecer. Tudo e todos, porque não valeu a pena. Álcool barato. Quente e amargo. Manda tudo pra dentro. E já não ouve mais nada. Não canta e não dança. Mesa legal essa, serve para deitar. Banheira legal, serve para dormir. Mas, "não pode ficar no banheiro". Vou ficar aonde então? Carregada para o sofá. Sofá de zebra supercool, serve para deitar e vomitar. Nem precisa sair do lugar. Fim de noite. Mandou todo mundo tomar no cu. Não viu nada. Nada além de caras cinzentas bolorentas. Não reconheceu ninguém. O coração parou. Acabou. Acabou. "Você vai para onde?" Não sabe. "Quer ir para a minha casa?" Oh, uma cama de verdade? Pode ser. Carregada pelas almas solidárias. Enfiada debaixo do chuveiro. Uma casa gigante, e nem depilou as pernas. E daí? Viemos todos do macaco. Macacos têm pêlos. De manhã parece melhor. Procura um banheiro. Casa enorme, tipo americana. Não tem papel na América. Os americanos não cagam. Lembra de Bukowski, da vez em que ele limpou o rabo com a cueca e depois jogou no lixo. Mas não quer ir embora sem calça. Procura a descarga. Não acha. Casas modernas de merda! Não há papel nem descarga. A América engole a própria merda. Volta para o quarto. Está ótima, lindo dia. O que restou do estômago querendo sair pela boca junto com o que restou do fígado. Castigo divino. Mas deus não era amigo dos bêbados? Para o banheiro de novo. Vomitando amarelo. Já achou a descarga, estava atrás da toalha, já pode dormir em paz. God bless America and love us all.
A. Díaz Nov/02
E foi isso. É claro que o Rey estava na Funhouse, só que eu já estava naquele estágio em que os rostos das pessoas são só a penumbra. É como se o mundo todo fosse feito de sombras e pessoas sem face. Desse modo, quando ele veio falar comigo, sabia que era ele pelo cheiro, pela voz, pelo feeling, então mandei ele se foder. Era o meu inconsciente consciente fazendo algo de útil por mim.
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01:43 am - Take 42 Passei algum tempo sem falar com o Rey, apenas tocando a minha vida. Finalmente eu não me importava. Nada com quê me preocupar. Não sei o que ele fez nesse meio tempo, acho que foi tentar se afogar lá em Santos. Acho que esteve ocupado demais tentando limpar o próprio rabo para se importar comigo.
Mas um dia ele me ligou e eu fui lá pra Moóca, fazer uma visitinha. Assisti, de muita má vontade, a mais alguns capítulos da novela Eu e Meu Pobre Rabo Chutado e Arrependido. Depois, numa dessas coincidências do demônio, encontrei-o por aí, sem querer, duas vezes consecutivas. A gente mal se falava. Mesmo assim, numa dessas vezes, eu o convidei para ir até a minha casa. "Não". Ele disse não. Mal acabei de ouvir a negativa e olhei imediatamente para o velocímetro, foi quase ao mesmo tempo; eu tinha acabado de passar a cem por hora num radar que só me permitia andar a setenta. Nunca se está fodido o suficiente. Na verdade, não fiz o convite pensando nele, eu só estava lembrando de como as coisas eram legais antes e pensando como eu queria alguém do meu lado naquela noite. Mas ele disse "não" e eu acabei por achar que foi melhor assim. Deixei-o em sua casa e estou aguardando a multa.
Isso se parecia definitivamente com o fim de tudo, mas a vida é algo muito difícil de se prever. Eu só sei que esse sentimento filho da puta só vai me abandonar quando houver dentro de mim algo que o substitua. Enquanto isso, eu não posso simplesmente sair por aí acelerando o carro e me arrebentando todas as noites como se isso fosse resolver a minha vida.
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01:41 am - Take 41 Domingo. Não estava de ressaca nem quis pensar muito a respeito de nada. Só lamentei o chão. Acho que fiquei com o cu pra cima, na frente de todo mundo, mas deixei para lá. Cu é uma coisa democrática, todo mundo tem um. Minha mãe ia usar o carro e então eu saí de ônibus. Estava até que meio animada para um festival de música que estava acontecendo em Pinheiros. Um puta sol na rua e eu estava me sentindo leve. Já não havia peso no meu coração. Sentia tudo em branco. Duas horas depois eu cheguei no lugar. Era muito escuro lá dentro e eu não conseguia enxergar nada devido à brusca mudança de luz. Saí tropeçando e ouvi alguém chamar o meu nome, mas eu não soube quem era. Assim que as minhas vistas se acostumaram, notei que era uma bonita e cara casa de show. Muito cara, aliás, por isso eu não comprei nada lá dentro. Nada além de livros. João estava por lá, vendendo seus livros empoeirados. Estava em pé, com seu inseparável chinelo, bermuda e camiseta, quando cheguei. Dei-lhe um tapa no rabo. Uma fulana, na banquinha de livros ao lado, ficou olhando. Logo depois eu soube que ele estava com ela. Ótimo. Até tu? O lugar se parecia muito com aqueles salões de festas enormes de navios que saem rumo às Bahamas. Tinha luzinhas vermelhas nos degraus das escadas, sofás de couro, mesa de bilhar, um lustre de cristal gigantesco pendurado no teto, e o palco ficava no piso inferior. Não estava muito cheio, apenas algumas pessoas estavam por lá, com suas câmeras e caras e roupas estúpidas. E lá estava eu também, com a minha câmera e a minha cara estúpida. Logo eu vi o Renato. Fiquei feliz em vê-lo de novo em tão pouco tempo. Ele está sempre bonito e chato. Porque o que ele tem de bonito, também tem de chato. Na mesma proporção. E ele não bebe, o que o torna insuportavelmente chato depois de algum tempo. Então ele começou a me chamar de Amanda, o que me irritou. Acho fez de propósito, ainda temos umas birras guardadas. Nós demoramos muito a acreditar que não demos certo. Muito mesmo. Demoramos mais para assimilar que não demos certo do que demoramos para nos conhecer, nos apaixonar, e ver que tudo não passava de fantasia da nossa cabeça. Comecei a chamá-lo de Rodrigo, finalmente estávamos nos entendendo. Ficamos andando juntos pra lá e pra cá, mas o cara não sabe nem dar risada. Não sorri. Uma pessoa azeda. Eu não gosto de pessoas azedas, prefiro um desdentado sorrindo. Aproveitei que ele foi filmar umas bandas e saí andando. Depois chegaram uns amigos e eu encontrei o tal baterista de Curitiba, a banda dele ia encerrar a noite. Ficamos todos por lá, jogando conversa fora, acendendo cigarros, baseados, e sacando garrafas das bolsas. Amigos legais são aqueles que começam a tirar garrafas das bolsas quando sabem que é um absurdo pagar três reais e cinqüenta centavos por uma mísera latinha de cerveja. Portanto, tínhamos vodca, vinho e catuaba à vontade. Já dava para começar a se animar. Renato desapareceu e Rey chegou com sua enorme cara de cu. Tinha virado algo recorrente, aquele cu colado na cara. Eu devia estar bêbada e feliz, porque o que difere os bêbados tristes dos felizes é um copo a mais de pinga, mas eu continuei ali, uma bêbada melancólica. Não vi muito dos shows, fui bater umas fotos no banheiro. Passei a maior parte do tempo no andar de cima, de onde também se podia ver os shows sem fazer parte deles. Num dado momento eu estava pendurada na grade, tirando mais umas fotos, e o Rey estava atrás, me encochando. Não foi possível resistir e o Renato ficou observando, num canto escuro. Eu vi que ele estava lá por causa da camisa preta-branca-vermelha. Não me importei. Na verdade, o que acontece é que o nosso humor não bate. Continuei a perambular por lá, bebendo e fumando cigarros encharcados de vodca. Todas as pessoas inteligentes estavam com suas garrafas na bolsa. As mais inteligentes bebiam tudo antes de vazar. Ao término dos shows já não dava para eu voltar pra casa. Fui então com o Rey para um bar. Continuamos bebendo e eu comi dois pedaços de pizza. Rachamos um táxi e fomos para a casa dele. Acho que fizemos sexo. E no dia seguinte eu fui direto para a editora, abraçada a uma poesia de Ginsberg. "América, você me fez querer ser santo..." Era a coisa mais verdadeira que eu já tinha lido.
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01:38 am - Take 40 E no próximo sábado, Funhouse de novo. Passei muito tempo freqüentando esse bar. E quem estava lá? Sim, ele estava lá. Rey. Derrubado no sofá, com seus olhos verdes caídos. Afundando em 9.999 metros cúbicos de dor profunda. Uma dor só compatível à minha, mas ele não sabe disso. Não ficamos nesse dia. Claro que não. Eu já havia tomado a minha decisão definitiva: nunca mais! Mas existe a decisão definitiva e as decisões definitivas. Portanto, foi só uma decisão que eu não consegui cumprir. Eu que me foda. Novecentas e noventa e nove milhões de vezes mais. Não tem fim mesmo. Não é por ser fraca, sabe, é por amor. Você pode até mudar de nome, esse sentimento, mas acho que é isso, no fim. O velho filho da puta, o amor. Quantas doses eu já tomei... Quantas vezes eu já não dei... Esqueci? Não. Quando você gosta de alguém, você pode colocar o seu coração debaixo de uma britadeira, debaixo de 100 caminhões pipas, enterrá-lo na neve do Alasca e, no fim de tudo, o amor estará intacto. Ele sobrevive e ninguém explica como. Acho que o diabo inventou o amor. A noite foi tacanha. Primeiro eu tinha que conseguir parar em cima daquele salto, porque eu nunca mais tinha usado a minha bota de drag. Depois eu tinha que cumprimentar as pessoas olhando para baixo. Não havia conversa possível que pudesse ser travada com o Rey. Só aqueles olhos já me davam vontade de sair pulando abismos. É triste perder. Qualquer coisa. É muito triste perder. Ninguém admite. O que ele havia perdido? Algo que de repente passou a ser vital para ele. E é assim que é, o amor. Portanto não havia nada que eu pudesse fazer. Eu não sou o amor da vida dele. Nunca esperei ser. Sou só alguém para sair e foder de vez em quando e ouvir sobre as namoradas tão legais que se enchem e vão embora com alguém que simplesmente não serve para elas. A culpa é minha. Eu não me lembro o que eu fiz a noite toda. Só fiquei lá, conversando com um e outro. Nada realmente importante. Achei um cara bonito. Ele era alto e tinha o cabelo meio encaracolado e os olhos claros. Não lembro o nome. Ele disse que eu tinha cara de má. Bom, eu poderia ter lhe dado uns bons chutes no cu com aquele salto, caso ele tivesse pedido. Mas então eu não estava afim e fui me sentar no sofá com o Rey. Ele passou olhando para a minha cara, o tal sujeito, lançando um olhar que eu não entendi. Não chegava a ser mau e também não se parecia exatamente com um convite. Se ele esperava que eu saísse correndo atrás do seu pau, se enganou, porque eu simplesmente não estava afim. Talvez outro dia, baby. Mas um minuto depois ele já estava beijando outra garota e eu perdi o tesão. A jukebox já não era a mesma. Haviam estipulado um limite de músicas a serem escolhidas. Fui ver a banda. O show foi legal. Eu fiquei dançando bem lá na frente. Apertei a bunda de uma garota, amiga do Rey. Ela também estava no fusca no dia do capote. Aliás, estávamos todos lá. Vivos, graças ao pó. Consegui não cair nenhuma vez ao longo do show e tentei me divertir enquanto acendia cigarros e tomava uns tragos. Encontrei a Cátia na porta do banheiro, estava bonita e maquiada. Peguei um pouco do que ela bebia e entrei com ela. Logo a gente estava se atracando no sofá e eu estava sentada de frente no colo dela. Estava bom ali e o Rey já não me importava. Mentira, porque ele estava bem do lado. Mas acho que ele não estava ligando, pelo fato de ela ser mulher também. Ou talvez ele simplesmente não se importasse, seja como for. Ela me pagou muitas doses de vodca e uma hora nós caímos no chão. Ou só eu caí e ela ficou por cima, achando graça. Não parei para olhar ao redor, os outros que se fodessem. Então ela quis dançar e lá fomos nós. Ficamos caindo lá na pista e as músicas pareciam legais. Eu precisava voltar cedo para casa, para devolver o carro do meu pai, mas não é difícil supor que isso não aconteceu. E por causa do maldito horário de verão, perdemos uma hora da nossa noite. No horário em que eu deveria estar de volta, com o carro, eu ainda estava lá, dançando com a Cátia e beijando pessoas. Distribuí vários beijos essa noite. Depois de algumas doses de álcool eu viro uma pessoa bastante afetiva, coisa que eu não sou muito. Não com qualquer um. Mas as pessoas não entendem, acham que só porque você as está beijando, beijinhos inocentes, quase maternais, você tem, também, que abrir as pernas. Estúpidos! Dancei mais um pouco e resolvi que era hora de ir, minhas pernas já não agüentavam mais e acho que aquele cara me beijou, um que ficou dançando Beatles comigo. A Cátia não estava lá nessa hora. Não achei nada, era um cara engraçado. Ofereci uma carona ao Rey, levei mais uns amigos e consegui não me perder muito. As coisas estavam melhorando.
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01:29 am - Take 39 Sexta-feira à tarde. O Rey me ligou e perguntou onde eu estava. Eu não estava em lugar nenhum, realmente, mas meu corpo vagava pela Avenida Paulista. Havia ligado para o André, horas antes, e pedido para ele me encontrar em frente ao Conjunto Nacional. Só para dar umas voltas, conversar, tomar uma cerveja. Eu não queria ir para casa.
Não sei ao certo se eu estava com fome, mas fui comer enquanto ele não chegava. Eu já tinha dado muitas voltas por ali e pensei que aquela sensação de vazio talvez pudesse ser preenchida com comida. Pedi esfihas de atum e queijo e uma coca-cola light. Estava bom, mas a minha fome não era real. Fiquei olhando para fora, para o nada. Olhar perdido. De repente eu vejo o Augusto passando. Fazia muito tempo que eu queria falar com ele. Saí correndo e larguei esfihas e bolsa e celular tudo lá na mesa. O segurança me chamou e eu disse que só "ia ali". Augusto entrou na farmácia. Fiquei na porta fazendo sinais com a mão e mexendo os lábios. Ele virou a cara e fingiu que não me viu. Continuei ali e disse que precisava falar com ele e que estava comendo ao lado. Tudo em mímica. Ele disse que iria lá. Fiquei esperando. Aquele um minuto demorou tanto, que eu pensei que ele tivesse fugido. Estava prestes a largar tudo de novo e sair correndo, mas então ele apareceu. Dei um beijo e um abraço nele. Seus braços penderam, frouxos, mas eu entendo. Ficamos falando sobre como ia a banda dele, sobre as festas e os filmes da "Bostra". Fingindo que nunca paramos de nos falar. Então ele me contou que está namorando aquela garota – mas isso eu já sabia – e perguntou se eu estava com alguém. Falei a verdade: que não. Falei a verdade: mais ou menos. Falei a verdade: eu não sei, mas decidi que não. Eu só precisava pedir desculpas para ele. Desculpas não são coisas fáceis de se pedir. Não é questão de orgulho, é que em se tratando de relacionamentos, erros, pau/buceta, homem/mulher, burrice, etc, a garganta começa a secar e dar nós e as palavras e frases lindas que estão na sua cabeça simplesmente não saem.
Fomos fumar lá fora. Eu não podia prorrogar mais nada, então comecei a falar, timidamente. Eu sou uma pessoa tímida. Eu ouvia aquelas palavras saindo da minha boca, todas tortas e aos pedaços, e era como se uma outra pessoa estivesse falando por mim. Fui ficando envergonhada e não reconhecia mais a minha própria voz, então passei a engasgar feito carro velho e a chorar. Ele me abraçou por alguns segundos e depois largou. Deve ter lembrado de tudo o que eu lhe fiz e sentido vontade de cuspir na minha cara. Veja este ser chorando, agora que não adianta mais nada... Tudo o que ele falou é que foi foda pra ele e que não dava mais para voltar no tempo. Eu disse que não esperava isso e que ele foi uma grande perda na minha vida e que toda vez que eu ouço Zombies eu choro. Imagino que tenha feito um grande bem para ele ouvir tudo isso. Depois o André chegou, debaixo de uma chuva forte, e ficamos os três fumando e olhando para os carros que passavam na rua com os faróis ligados. E observando as pessoas de açúcar que corriam e quase caíam ao fugir da chuva com seus guarda-chuvas do avesso. Eu já estava rindo nessa hora, enquanto deus chorava lá de cima por mim.
Sempre achei engraçado ver pessoas tropeçando e caindo. Lembro de uma vez, quando eu era pequena e estava com a minha tia mais nova dentro do fusca branco da minha tia mais velha. Minha avó estava com uma visita no portão e quando ela foi descer a calçada, escorregou na areia e caiu de quatro. Lembro que ela ia descendo e de repente sumiu do nosso campo de visão. Eu falei para a minha tia, que era uma criança como eu: "a vó caiu". Ela ficou olhando, assustada, enquanto eu chorava de rir, mas eu sabia que não devia estar fazendo aquilo. Nenhuma de nós duas saiu do carro, no entanto. Minha avó foi levantada pela visita e ficou com os joelhos ralados. Ela era meio gorda.
O Rey me ligou no celular e eu disse que ia ficar ali pela região da Paulista e perguntei se ele queria aparecer. Disse que sim e que precisava ir até um bar em Pinheiros porque ele havia ficado bêbado na noite anterior e largado a bolsa lá. Certo. Eu, o André e o Augusto fomos beber num bar ali por perto. Depois apareceu outro amigo nosso, um eterno deprimido, e se juntou a nós. O Rey só apareceu por lá bem mais tarde, quando todos já tinham ido embora e estávamos só eu e o André na mesa. O deprimido foi dormir e o Augusto foi encontrar a namorada no cinema. Eu saí do banheiro e dei de cara com o Rey na mesa. Fiquei surpresa, não lembrava de ter falado que estávamos naquele bar. Ele disse que "farejou" e pediu mais cerveja. Duas amigas nossas chegaram. Todo mundo desanimado e com cara de bunda. Eu não tinha vontade de falar nada. Então o Rey me chamou para ir com ele pegar a bolsa. Eu disse que não tinha dinheiro, ele disse que pagava e eu fui, mesmo não querendo. Acho que fomos e voltamos em meia hora, praticamente em silêncio.
Continuamos no mesmo bar. Encontrei o Ricardo na rua, um puta cara legal com o qual eu fiquei algumas vezes e parei para dar um alô. Falei: "quase não te reconheci com esse cabelo". Ele estava com uma tremenda juba de leão e deu risada. Não é que estivesse feio, mas eu não lembrava dele daquele jeito. A gente ficou se falando um pouco e eu fiquei feliz em revê-lo. Ele disse a mesma coisa, e eu teria ido com ele. Para qualquer lugar. Porque sim. Apenas por ele ser uma puta pessoa legal. E ele também é psicólogo, uma pessoa super calma e amiga.
Do bar, que estava chato pra caralho, resolvemos ir para a Funhouse – não dava mais para voltar pra casa.
Assim que eu coloquei os pés lá dentro, fui acometida por uma violenta sensação de arrependimento. Eu devia ter ido pra casa enquanto era tempo. Passei a minha pior noite dos últimos tempos. É foda gostar de alguém e, mesmo assim, sacar que o grande lance acabou. Que não dá mais para continuar. Porque não. A sensação que ficou foi de mal-estar. A gente não cabia mais um do lado do outro, fomos roubados. Eu sabia que se eu ficasse perto, acabaria cedendo em nome de um passado ainda presente, então tratei de ficar distante. Mas um distante que é perto. E só por isso dói e fode mais do que tudo.
Ele ficou lá no sofá, numa conversa sem fim com duas garotas. Estava quase deitando no colo de uma delas e eu pensei seriamente em pegar um táxi e pagar sessenta reais – em cheque sem fundo – para sumir dali. Eu não me importo, desde que eu não veja. A única hora em que eu sentei do lado dele, ele me abraçou e eu tive que dar um jeito de fugir. É mais ou menos como ter um punhal cravado no coração e ir martelando. Aquilo vai enterrando cada vez mais fundo e parece que a dor será insuportável, mas no fim de tudo você sobrevive. Aos pedaços, mas sobrevive. Até o dia em que não sentirá mais nada.
Já estava cheia de beber, mas não havia outra saída. Tentei me divertir um pouco. Ele estava ali sozinho. E eu estava sozinha também. Dois solitários no meio de uma multidão. A gente podia estar junto, mas não estava. Até dancei e brinquei, sem a menor vontade. E parei de rejeitar bebida depois que ele se sentou naquele sofá estúpido.
Desci e fiquei dançando sozinha na pista. Depois tentei entrar no banheiro, que era uma piscina de mijo e água suja, e subi. Um cara ficou me olhando, era feio. Desci e subi as escadas muitas vezes durante a noite, ele continuou lá, com o rabo colado na porra do sofá de zebra, pensando não sei em quê. Não parecia feliz.
Uma hora o André veio me chamar para ir até a jukebox. Fizemos uma seleção enorme de músicas que não tocavam nunca. Quando tocaram, o André não estava. Depois ele voltou e ficamos bebendo nossos últimos centavos; ele já estava subindo na mesa de centro e pulando em cima das pessoas. Porque é esse o sentimento. A noite agindo como um lobo faminto no nosso subconsciente. A verdade é que somos todos selvagens, e então tentamos mascarar isso usando garfo e faca. No entanto, desconfio que nada me tiraria a sobriedade nesse dia. O lobo estava babando e mostrando os dentes, colocando todas a garras para fora, uivando, mas mantive a mesma consciência fria e imparcial de quem está indo para a forca. Não adiantava eu me rasgar em mil pedaços e sair destroçando cada um que passasse na minha frente. Portanto, fiquei na minha, consciente de tudo o que estava se passando.
Já estava claro lá fora e o Rey estava conversando com a Cátia; havia se mudado para as poltronas. Fiquei com ela uma vez, na Lôca, e nunca mais nos vimos. Peguei minha bolsa para ir embora e ela me chamou. Fingi surpresa, mas eu sabia que era ela. Ele saiu. Nós duas acabamos ficando de novo, mas não sei por quê. Um cara veio nos avisar que o bar já ia fechar.
Eu andava sendo expulsa dos bares com uma certa freqüência, ou eles é que andavam fechando cedo demais, às sete da manhã. A bolsa do Rey estava jogada em cima da mesa, ele foi pagar a comanda e não voltou. Não tive muita vontade de pegá-la, no entanto, principalmente por ter certeza de que ele estaria lá embaixo encochando garotas de cabelos vermelhos. Mas deixar a bolsa ali, jogada, seria como deixar pra trás tudo o que ele representou para mim – porque o fato de não haver um futuro não significa que o passado possa ser apagado assim. Pedi para a Cátia pegar. Disse: "vamos deixar a bolsa do Rey aqui?" Não, não vamos. Ela pegou como se estivesse pegando um rato morto. Aquilo não era dela e ela não se importava, portanto; mas a mim importava, eu só não queria mais era ter a ver com aquilo, não sei se vocês entendem. Chegando lá embaixo, entregou para ele e não sei se ele agradeceu, fiquei me escondendo atrás de uma pilastra, tendo que encarar o caixa e amaldiçoando isso. "Devia ter pago a conta antes", pensei. A cabelos vermelhos me achou atrás dos escombros e disse "oi", estava bonita num modelito oncinha.
Agora, porque eu não queria pagar a conta:
1. Eu não tinha um puto.
2. O valor da minha comanda era simbólico e mesmo assim eu não tinha a porra do dinheiro (assumo que sou uma pessoa falida).
3. Quem estava no caixa era o dono do bar, e ele me parecia ser um cara legal.
4. Eu teria que pedir para segurar o cheque naquele valor miserável e... – Quanto deu? – eu perguntei. – Onze reais. Isso eu já sabia, mas tinha que disfarçar. Eu só tinha um real e cinqüenta centavos para ir embora. – Você me empresta uma caneta? Ele ficou olhando para a minha cara, sentindo pena, ou ódio, porque ninguém faz um cheque nesse valor. – Posso jogar para o dia 1º? Entre voltar o cheque e passar carão, fiquei com a segunda opção, mas talvez a primeira fosse mais nobre, numa visão rock’n’roll, se bem que eu não sei se ele também pensava assim, sendo o dono. – É, mas não vai voltar? Não pensava. – Se cair antes vai.
Dei uma risadinha tentando tornar a coisa engraçada, mas não era. – Tudo bem. Rabisquei o telefone atrás, num garrancho já sem paciência, e ele me pediu para escrever de novo. Todos, sem exceção, olharam para a minha cara nessa hora, pude sentir as vibrações. No fim, tive vontade de mandá-lo tomar no cu. Quando fui embora, a cabelos vermelhos estava beijando ele. Parecia milionária. Peguei uma carona com a Cátia e ela me deixou no metrô, junto com o Rey. Fui para a minha casa. Poderia ter ido para a dele, mas seria mais uma martelada e eu já não tinha mais sangue. Nem vida. Nem nada. Se eu não resistisse, estaria prorrogando minha estadia no inferno. Eu e Rimbaud. E todos aqueles que experimentaram o gosto sórdido do amor. . E sábado à noite eu continuava sem chão. Ele me ligou e conversamos brevemente. Disse que estava triste, eu disse que estava triste também, mas os motivos ficaram no ar e nós não discutimos. Depois me disse que "às vezes dá vontade de mandar todo mundo tomar no cu e sumir". Entendi que isso me incluía. Concordei e fui dormir.
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01:28 am - Take 38 A sensação que eu tenho é de que não sobrou pedra sobre pedra. Órgãos, ossos, nada. Tudo virou um amontoado de pó dentro de mim e nada mais faz sentido. Uma bomba explodiu – o meu coração.
Caos. Destruição. Desolação. Nenhuma palavra basta. Eu nunca alimentei esse sentimento, mesmo assim, ele cresceu dentro de mim. Contra a minha vontade. Contra todas as impossibilidades. O amor é um câncer. Nadou contra a correnteza, sozinho, e venceu. O amor venceu e eu perdi. Mas será, agora, arrancado. Jogado fora como um feto indesejado. Expulso como um corpo estranho. Cuspido. Meu amor por ele será abortado. Aos quatro meses. E pronto.
Eu nem quero, neste momento, ser forte. Uma pessoa tem o direito de desmoronar sem que ninguém interfira. Alguém que quer realmente morrer, e deseja isso do fundo de sua alma, consegue. Alguém que deseja deixar de amar, do fundo de seu coração rachado, também deve conseguir. Parece muito mais fácil, porém, morrer.
Não quero outro amor. Dispenso a loucura desenfreada da paixão. Eu não quero nada além de ser deixada em paz com a minha dor. Vou bebê-la até o fim e esperar tudo isso passar. Um coração novinho em folha me será dado no final. Sinto isso. Um coração de plástico, ou de lata. Ou de qualquer coisa que não sinta nada.
Se você torceu por um final feliz, saiba que nem eu fiz isso. Simplesmente porque eu não acredito que a felicidade possa ser encontrada do lado de fora. Tudo o que precisamos para ser felizes deve estar dentro de nós mesmos. É isso ou o poço sem fundo da desilusão.
Também não é tão triste quanto parece. Porque a única coisa capaz de me destruir por completo é saber que eu amei muito o pouco.
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01:24 am - Take 37 Onde vivem os amores imortais? Quem me dá um amor de verdade? Faço trocas e negocio. Aceito cheque e dinheiro falso. DE NOVO, NÃO. Eu tô cansada de viver aos pedaços. Me devolve isso aí, porque isso é só o meu coração, e sem ele eu não posso viver. Obrigada.
Mandei ele para o sol. O sol, porque eu não posso simplesmente chegar lá, na casa da Dona Maria, e mandá-lo para a puta que o pariu. Ela nunca me viu antes, a mãe dele. "Olá". Morta de vergonha e desânimo.
– Alguém aí conhece a Anne? – ele perguntou aos seus.
– Não, por quê? – alguém respondeu com outra pergunta.
– Porque ela tá aqui.
Sim, eu estava lá. Perfeito. Na casa dele. E a mãe dele chegou da feira com sacos de tomate e pés de alface. Alguém acha que eu deveria estar lá? Não, tenho certeza de que ninguém acha isso. Nem eu acho. Eu nunca achei nada. Mas eu sempre ignoro os fatos. Eu já estive lá antes. Poucas vezes, é verdade, mas a Dona Maria não estava. Ficou olhando para a minha cara e perguntou se eu morava perto do aeroporto. Sim, os aviões fazem rota bem em cima da minha casa. Se eu quiser, eu derrubo um da minha janela com um cuspe.
Fui beber com ele lá na Moóca. Fui porque eu queria vê-lo, porque se eu passo uma noite e um dia inteiro com ele eu fico cansada, mas depois eu fico com saudades. Então nós estávamos no mesmo bar em que nós ficamos pela primeira vez, depois da "primeira vez oficial", e ele quis ir para outro, mas não sei por quê. Fomos para um muito mais claro onde umas hippies de chinelo vendiam pulseiras. Eu não gosto daquelas pulseiras horríveis, de modo que, por mim, elas podiam ter pego tudo e enfiado no cu. Eu nem gosto de hippies. Eu estava de péssimo humor. Tive que ouvir sobre a namorada que ficou com outro e ligou chorando para contar. Ela gosta dele. Ótimo. Eu que me foda.
Ele diz que acha legal o fato dela ligar para contar que ficou com outro. Acha legal porque ela faz o que ele já não pode fazer: sentir culpa. Culpa que ele sentiu igual, um dia, mas foi corrompido pelas duras verdades da vida. A vida, aceite-a como ela é.
E aquele anjo em estado bruto, ali, do outro lado da linha, derramando lágrimas torrenciais e amando mais do que pode este mundo que é o único culpado de tudo. Lágrimas de verdade. As lágrimas que eu não tenho e que ele também não tem. Por isso é tão legal. Talvez até eu ache legal. Pessoas que choram se tornam santas, pois as lágrimas lavam os pecados da alma e as livram da penitência. Quem chora pode entrar no céu. Quem não chora queima. Queimamos.
Não estava agradável ali. Nada mais estaria agradável naquela noite, por isso, só fui bebendo e tentando não tirar conclusões precipitadas acerca de nada. Liguei o "foda-se". Ele não estava ali – bom, o corpo estava – e eu nem quis saber onde estava. Só que burra, também, eu não sou. Liguei para a Mari:
– Onde você está?
– Na Brigadeiro, comprando um cd do T-Rex.
Cd do T-Rex número 9.999.
– Vem pra cá, meu, eu tô na Moóca. Ela não foi e eu também não devia ter ido. Eu já tinha falado para ele que eu não ia, mas depois eu mudei de idéia. Minhas idéias, todas uma merda. Apareceu um amigo dele e sentou-se na mesa. Quando foi cumprimentar o amigo, ele ficou com os braços estendidos para cima, igual Jesus Cristo. O cara era legal e falava coisas legais e pediu pinga com mel. Achei bom alguém ter aparecido.
Eu bebi da pinga com mel. Eu e o meu estômago vazio, apenas com algumas cervejas. Quando o bar fechou, meia-noite, voltamos para o primeiro bar. Eu já não estava vendo muita coisa. Sentamos lá e continuamos bebendo. Alguém deveria ter percebido que eu já não sabia o que estava fazendo. Minha mãe me ligou e eu não faço idéia do que eu falei para ela, se é que consegui articular palavras. As hippies das pulseiras estavam jogando bilhar. Fui lá falar com elas. Quando estou bêbada, eu gosto dos hippies. Eu não me lembro do nome dela, a peituda, mas chamei-a de Sol, porque Sol é nome de hippie. Ela ficou feliz. Aí eu fui ao banheiro, e voltei para a mesa, e lembro que havia mais um copo de pinga e, então, não me lembro de mais nada. Sei que vomitei, e que ficamos esperando uma carona. O dono do carro ficou preocupado, não queria que eu vomitasse no carro dele. Coloquei a cabeça pra fora e vomitei; ficou tudo lá, na porta do carro. Já na casa do Rey, lembrei que a mãe dele estava lá e tentei subir as escadas como uma pessoa normal subiria. Se eu consegui, não sei. Ele ficou carregando a minha bolsa e eu caí na cama dele. Não dormimos juntos. Foi estranho. Eu nunca senti nada tão estranho antes. Mentira, senti a mesma coisa quando o meu primeiro namorado chegou com aquela frase: "eu não sei se é isso o que eu quero..." Quem sabe? A Dona Maria estava lá e ela sabe que ele tem uma namorada e que ela não sou eu, mas acho que não teve nada a ver. Mesmo. Eu não consegui sentir tristeza, eu nem sei explicar que tipo de sentimento foi aquele, que perdura até agora. Estranho pra caralho. Quando eu acordei de manhã, eu queria morrer. Eu não queria ter vomitado e sido uma pessoa fraca na frente de estranhos. Na verdade, eu acho que eu estava vomitando muitas coisas ali. O vômito foi apenas um meio de colocar tudo o que eu estava sentindo para fora.
Ele ainda dormia, ou fingia que dormia, no colchão no chão, quando eu resolvi parar de fingir que estava dormindo e fiquei olhando as fotos amareladas pelo tempo na parede. Acordei às oito – olhei no relógio tic-tac ao lado da cama. Dormi de novo e então já queria sumir dali. Ir para qualquer lugar. Um lugar onde alguém me daria um abraço. Só isso.
Ele abriu os olhos e falou qualquer coisa sem importância. Colocou Beatles para tocar e eu fiquei em silêncio. Depois me mostrou a vitrola que era da avó dele e tentou pegar rádios alemãs sem sucesso. Era um móvel enorme, de 1960. Teria sido mais fácil estabelecer contato com ET’s. Comi um pedaço de pão, meio pastel de feira e falei "tchau" para a Dona Maria. Pegamos metrô. Eu desci no centro e ele foi comprar baquetas na Teodoro.
Quando cheguei na editora, num ânimo de dar dó, fiquei conversando com uma colega. Saiu quase como um espasmo, dessa minha boca: "eu gos-to, de-le". Assim mesmo, pausado. Em dúvida, quase me arrependendo do que estava dizendo.
Quando eu perguntei sobre aquela cara dele, me disse que estava cansado, que estava afim de "pegar uma praia". Eu entendo, às vezes São Paulo é áspera e cinza demais... O concreto fica no pulmão. A alma fica mofada. Junto com o coração que pára.
Escrevi um e-mail para ele e disse: vá para o sol. Choose life.
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01:19 am - Take 36 Sexta-feira. Quero que tudo o mais vá para o inferno. Do fundo do coração.
Fomos à 26ª Mostra de Cinema, eu e o Rey.
– O filme não chegou no Brasil ainda.
– O quê?
– É, não veio.
Descemos a Augusta inteira para chegar lá e ouvir que o filme que eu queria ver, um documentário sobre Andy Warhol, não havia chegado. No lugar, colocaram um da Britney Spears travesti. Fantástico! Subimos a Augusta inteira, de volta, e descemos até a Frei Caneca. Tínhamos ainda uma segunda opção, um documentário sobre a cena musical de Manchester. "Esgotado desde as três horas da tarde". Como se não bastasse, ainda nos fizeram descer no andar do Comitê do Serra. O segurança disse que o cinema ficava no sétimo andar. Os fotógrafos de plantão acharam graça da nossa cara de espanto. "Não é aqui o cinema?" Não era. Ficamos ali, esfarrapados e frustrados, junto com um velho careca que também havia sido enganado, esperando o elevador para ir pra casa dormir – era tudo o que nos restava. O segurança agiu de má fé.
Já na rua, compramos cervejas no mercado e sentamos na mesa daquele bar-lanchonete perto da Lôca. O André apareceu do nada, e depois outras pessoas apareceram. Fomos todos para o ateliê. Estava legal lá, mas eu não estava afim de enfrentar uma noite vendo a Maria Alcina discotecar na única proposta de festa da noite. O Rey estava ao meu lado, segurando a minha cabeça sonolenta de maconha. Eu falei para ele:
– Eu tô afim de ir pra casa.
As pessoas pareciam animadas dançando Michael Jackson, bebendo vodca, fumando cigarros e conversando. Admito que o Michael estava engraçado, todo mundo dançou imitando aquelas coreografias escrotas. Inclusive o Rey. E eu também. Ele pegava no pau e empinava. Hahaha. Eu não tenho pau.
– Mesmo?
Balancei a cabeça afirmativamente, sem muita certeza. Não é exatamente que eu quisesse ir para casa. Eu só não queria ver a Maria Alcina discotecar e me arrepender do quer que fosse. Se tem uma coisa na vida que eu não suporto é me arrepender de algo. Por isso, decidimos ir embora. "Tchau, gente, obrigada, mas estamos indo". E fomos. Saímos correndo, no meio das putas. Fugimos a 360 km por hora. Deu tempo de pegar o metrô e ainda pegar o ônibus da meia-noite para a minha casa. O Rey foi junto.
Ônibus lotado. Parece que todo mundo resolveu ir embora para casa ao mesmo tempo. Desconfio de uma síndrome de "life sucks". Acho que ficamos felizes de estar indo para casa e sentamos na escada do ônibus. Mas só porque estávamos ali, óbvio, as pessoas resolveram descer em todos os pontos de parada possíveis. Resolvi ficar em pé de uma vez. O Rey também. Me puxou para perto e ficamos encaixados. A perna dele ficou no meio das minhas e ele fazia um movimento de vaivém. Achei isso bastante agradável, e imagino que quem estava atrás deve ter chegado em casa e batido punheta. Com freqüência fazemos esse tipo de coisa em ônibus e metrôs. Ele costuma ficar excitado com o movimento, principalmente quando passamos em buracos.
Chegamos rápido até, uma hora. Meu pai abriu a porta só de cuecas e parecia irritado com qualquer coisa. O Rey perguntou se ele tinha ficado bravo, falei que não. Sentamos na sala para comer. Pizza de rúcula com mussarela. Minha mãe apareceu só de pijama. "Isso são horas?" São. Eu não estava com fome e só bebi coca-cola. Esperei o Rey comer a pizza fria e fiquei vendo tevê. Só merda. A tevê é uma grande merda. Disse que estava satisfeito e colocou o prato na pia. Sentou.
– Acho que eu ainda estou com fome.
– Come mais.
– Mas só tem mais um...
– Pode comer.
– Você não vai comer?
– Não.
Levantou e pegou o último pedaço. Ele também gosta de rúcula.
Eu queria dormir na sala. Teria pego o meu colchão e colocado no chão, entre os sofás encardidos da minha mãe, mas o Rey não gostou da idéia. Acontece que, alguns dias antes, um cara foi visto em cima do telhado da minha casa, olhando para o meu quarto. O Rey me ligou e a minha irmã foi levar o telefone lá fora e, assim que a viu, o cara saiu correndo. Fiquei com receio de dormir lá, mas o Rey disse: "eu estou aqui". Olhei para os seus 50 quilos, um pouco mais, e não me tranqüilizei muito, mas, tudo bem, dei o colchão para ele levar e ficamos lá ouvindo música. Ele começou a me beijar. Aquele tipo de beijo que não é simplesmente um beijo, é sexo.
Eu estava de costas, ele deitou por cima e depois me virou. Sexo oral. Ele fica com uma cara engraçada quando faz sexo oral, se bem que eu nem via a cara dele afundada lá no meio das minhas pernas. Dá uma sensação que mistura prazer com aflição. Parece que algo vai explodir, como quando se faz sexo anal. Todos os órgãos parecem vibrar ao mesmo tempo.
Então o pau dele está enorme, um pau lindo pra caralho, com o perdão do trocadilho, e eu tinha uma camisinha na fronha. Na pressa, coloquei errado. Quando eu desenrolei, ficou na metade do pau. A gente nunca tinha visto aquilo.
– O que é isso, uma camisinha de anão? – ele perguntou.
Hahahahaha... Começamos a rir. Não dava para acreditar. Mas depois descobrimos que ela estava do lado errado, porque assim que ele tirou, ela desenrolou. Aí não servia mais para nada e não tínhamos outra. O pau dele ficou mole. O jeito foi ficar com o sexo oral. Depois de gozar, ele dormiu e eu fiquei ouvindo música e pensando no Augusto. A vida dá muitas voltas, o coração nos prega muitas peças e, no fim, nada se encaixa.
Sábado de manhã ele me acordou. Depois que ele acorda, costuma falar comigo, como se eu estivesse acordada também, só fingindo que estou dormindo. Ele é engraçado.
– Nós hibernamos – ele disse.
Mas ainda era cedo e eu teria dormido mais um pouco, só que ele não deixou. Fizemos sexo de novo. Engoli a porra quente e fresquinha que saiu do pau dele – minha primeira refeição do dia. Depois ficamos tocando. Eu na guitarra e ele no violão. Mostrei a ele o meu novo repertório de cinco músicas e quase onze horas descemos para comer. Minha mãe ficou na cozinha e contamos sobre o Serra e a nuvem preta que anda sobre as nossas cabeças. De fora pareceu engraçado. Aí sentamos na sala com os meus irmãos e eu fui tomar banho. Decidimos ir ver um festival de música no Sesc Ipiranga. O meu pai explicou como se chegava lá. Falou a mesma coisa umas cinco vezes seguidas, estava bêbado. Disse que o ônibus era "uma delícia" e coisas do tipo.
O sol estava forte e dentro do ônibus nos sentíamos num forno. O pau dele ficou grande de novo – movimentos, buracos –, e como não havia ninguém por perto, ele o tirou para fora e me mostrou. Lá estava, grande e vistoso e rosado, parecia ainda maior à luz do sol. Eu teria transado ali, também fiquei com tesão, mas não fizemos isso. Ele bateu punheta e gozou na cortina e no banco da frente, eu só ajudei. Era um desses ônibus executivos. Ele poderia ter gozado para o alto e teria caído na cabeça de uma mulher que estava sentada mais à frente com o seu marido. Acho que teria sido engraçado. "Bem, está caindo porra do céu. O senhor está gozando sobre as nossas cabeças".
Descemos no centro de São Paulo para pegar um ônibus até o Ipiranga. Ficamos debaixo de um orelhão, lendo os anúncios colados: "oral até a última gota". Do outro lado da calçada, avistei o Renato passando, fazia tempo que eu queria encontrá-lo. Dei um berro e fui lá falar "oi". Me pareceu mais bonito do que nunca. Estava com sua calça jeans, seu tênis branco e sua camiseta azul com o logo de alguma revista inglesa. Fiquei meio desconcertada, visivelmente perturbada com a sua aparição. Ele foi uma paixão fulminante na minha vida, dessas que só acontecem uma vez, eu acho. Coisa de adolescente que se deixa levar por imagens. Eu achava, naquela época, que ele era uma espécie de Iggy Pop. Mas também já fui apaixonadíssima por um "Kurt Cobain". Bom, acaba aqui a minha gama de rock-stars. Nada a ver com identificação, ele nunca preencheu as minhas expectativas, mas é bonito pra caralho, o filho da puta, e tem um corpo incrível, só que não sabe muito bem o que fazer com ele. Disse que estava indo comer pastel e parece que ficou meio sem graça com o Rey ali. Falou, levantando a camisa e coçando a barriga – num ato explicitamente sexual –, para eu aparecer lá no Plastic – um bar onde eu costumava ir – e levar o meu "amigo". Peguei o telefone novo dele e fiquei de ligar, coisa que ainda não fiz.
No ônibus, um vovô que falava alto e vestia paletó e calça xadrezes, realmente antigos, com um par de sapatos marrom que pareciam muito maiores do que ele, se sentou bem na nossa frente. No braço, tinha uma pulseira verde limão e rosa choque. Disse que era para "pegar mulher infiel". Entrou por trás e ficou lá falando alto e anotando o telefone de um restaurante espanhol. Ele era engraçado e junto com ele estava outro senhor, que também vestia paletó debaixo de um sol escaldante, e carregava um quadro cuja tela estava furada. Ouvi esse senhor dizer que havia pintado o quadro, mas estava mais com cara de tê-lo achado no lixo. Puxamos papo com o velhinho e ele disse, então, que era médico. Ficou mostrando umas fotos meio nada a ver, tipo ele com um avental de médico em algum lugar que não se parecia com um consultório, e nos deu um cartão. Disse: "vão lá me visitar". E depois perguntou se não poderíamos ir naquela hora mesmo. Dois tipos canastrões, isso sim. Perguntei se ele era espanhol, por causa do restaurante, mas disse que era libanês. O outro senhor ficou de ouvido no Rey quando ele comentou que era músico, e tratou logo de lhe entregar um informativo. Disse que era de um templo budista e falou para ele fazer uma visita. Eu só pensava no Renato. Quando desceram, o vovô me deu a mão e falou "tchau, Aninha, espero vocês dois lá no meu consultório, é só ligar". Que espécie de consultório devia ser esse?
Chegando no Sesc, encontrei meu antigo caso, o João. Estava lá vendendo os seus livros e eu já deixei cem paus com ele. Livros são um vício. Me deu um beijo na boca e lambidas de cumprimento, o Rey ficou olhando. Eu adoro o João, se ele não tivesse ido embora, na época em que eu gostava dele, talvez estivéssemos juntos até hoje, porque ele escreve os textos mais fodas que eu já li, e me fazia massagens, me dava comida na boca, e me fodia no chuveiro e na parede, além de ser louco e engraçado e morar numa casa antiga. Adoro ele.
Mas, completando toda a nossa maré de azar, foi só pisar no lugar que a luz acabou e não voltou mais. Resultado: pagamos, não vimos as bandas, e o nosso dinheiro não foi devolvido. Na volta, pegamos uma carona. Quase atropelamos uma criança, um cachorro, e me deixaram ainda com vida no metrô. Agradeci e falei para tomarem cuidado. Chegando em casa, dormi até o dia seguinte. Quatorze horas de sono, já tinha visto o suficiente para um final de semana. Falei para o Rey que ia cavar um buraco no colchão e desistir de botar a cara na rua.
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01:16 am - Take 35 Digamos que o cenário nunca mude. Latas e mais latas de cerveja se acumulando em cima da mesa. Garrafas vazias de vodca do lado de fora da porta. Maços de cigarro que nunca chegam. Cinzas. Música. Um baseado para relaxar e pinga para animar. Casais de verdade e casais de mentira. Pessoas sozinhas, desejando alguém. Aumente o som. Aumente tudo. A vida é para ser ouvida no volume máximo.
Quinta-feira gorda. Same old same.
– Vamos sair? Beber?
– Tá.
Mas logo fico cansada da conversa, e cansada do rock’n’roll. Meus sentidos estão todos muito longe dali. Pensando na vida que não se realiza. Estou ficando velha e cansada, aos vinte e três anos de idade. No entanto, sigo acreditando. Não mais no amor, embora ainda ame. Uma história publicada, quem sabe. O meu nome embaixo, letras miúdas e exatas. Um livro inteiro para as pessoas lerem e se identificarem e gostarem. Quem escreveu? Anne Díaz. Com acento no 'i' e 'z' no final, por favor. Sim, guardem bem esse nome. E seus beijos de repente ficaram distantes. Suas mãos, leves como o vento que sopra frio e quente numa noite de primavera. Mas agora me dêem licença, que eu vou ali do lado, dormir.
– Será que eu posso pegar o colchão?
– Claro.
– Obrigada.
Será que eu posso também subir num balão? Voar até o infinito? Só vou descansar um pouco. Amanhã eu acordo. Deitei com o Rey num colchão no chão. Era um daqueles colchões que dobram em três e só comportam uma pessoa. Mas pelo menos somos magros, de modo que o colchão não foi realmente um grande problema. Falamos em ir embora, quase três da manhã, mas não havia como. Então apagamos. Ainda tentaram nos acordar. "Nós estamos indo". Abri os olhos e fechei de novo. Eu não estava indo a lugar algum àquela hora. Vão vocês.
Nos deixaram ficar no ateliê e quem tinha que ir embora foi com deus. Ou com o diabo, quem sabe. Levantei meio zonza, peguei um edredom, com calor e tudo, porque eu não consigo dormir descoberta, e deitei de novo. Praticamente no chão. O André levantou e nos cedeu duas almofadas, agradecemos.
Só fui acordar horas depois, com o barulho dos carros e o sol batendo na janela. Já era de manhã e as pessoas ainda dormiam. Mas não eu, que tinha milhares de coisas para pensar. Queria estar longe dali. Longe de São Paulo. Talvez numa praia deserta, embora não suporte sol. Talvez em Marte. Comigo mesma – porque eu gosto de ficar sozinha. Arranquei o edredom e olhei para o lado. Olha quem está aqui! Ele sempre volta de algum lugar que eu não sei onde fica. Na verdade, isso pouco me importa, porque o que interessa, mesmo, é que ele volte. E só por estar ali, passo a mão em seu cabelo fininho, como os de uma criança, e continuo fritando na cama. Mole demais para levantar, barulho e claridade demais para dormir. Ele me dá um beijo nas costas e vira para o outro lado. E depois que acorda, pra valer, a gente já começa a dar risada.
– Ahhh... todo mundo dormindo na boa e a gente aqui, nessa cama de faquir.
Hahahahaha. Rimos a manhã toda. Piadas ácidas e apelidinhos infames. Um salame de óculos, uma salsicha de lenço. Tudo brincadeira, lógico. Nós mesmos somos uma grande piada. Talvez a maior de todas. Levantamos e fomos comer, então voltamos. O meu pão de queijo parecia uma borracha velha, e a torta de palmito dele foi digerida com muita fome. Enquanto comíamos, ele disse não querer ter filhos. "Eu não sei cuidar nem de mim". Ótimo, deixa que eu cuido. Eu, que também não sei cuidar de mim. Disse pra ele que ainda não havia me decidido. Um filho precisa de um pai? Espero que não.
De volta ao ateliê, seguimos a manhã toda com mais cervejas e música alta e piadas. O telefone morreu de tocar. Ninguém estava afim de atender. Um remanescente da noite bateu na porta e entrou. Caiu no sofá e não levantou mais. Eu não estava afim de nada. Alternava entre o sofá e a nossa cama de faquir. Quase duas horas da tarde, fomos almoçar. Acho que eu era a única ali que tinha que ir trabalhar. Fui embora sem levar nada. Nada para pensar sobre depois. Quase caí num degrau do metrô. Sempre fico atrapalhada nas despedidas. Ninguém riu. A realidade não é tão engraçada quanto a cama de faquir por uma noite, quanto os salames e as salsichas ambulantes, quanto o efeito do álcool que passa assim que se abre a porta da rua. Um beijo na boca e tchau. "A gente se fala". Claro.
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November 17th, 2003
04:25 pm - Take 34 Tudo ficou longe demais. Tudo ficou para trás.
Anne substitui pessoas por música. E substitui vida por sonhos. E vazio por chocolate. Fodas por orgasmos múltiplos – by herself.
Dias de sol e praia. Anne na praia. Quem diria? Borrachudos. Mas fodam-se os borrachudos. Ela não se importa. Está cagando e andando para os borrachudos, nem nota. Que me comessem viva. Que a vida me coma viva. E não o tédio, a desilusão e o ócio.
Liguei lá na praia por pura falta do que fazer. Sexta-feira à noite, um calor de matar. Kate e Ciccio já haviam fugido para o sol e o mar há uma semana mais ou menos. E, de repente, quando eu ligo, estão todos lá. André, Renata, Fábio, Márcio... Todo mundo com uma enorme vontade de tirar o cinza-poluição da alma, mesmo que por míseros dois dias.
– Anne, vem pra cá.
O que eu estou fazendo em São Paulo mesmo? Ah, nada. E o filho da puta nem está aqui. Foi para o aniversário da namorada.
Gringos milionários atrás de mulatas. Promessas baratas. Amigos bêbados, rabo queimado de sol, jurando amor eterno via celular. "Anne, vem pra cá". "Anne, eu te amo" – essa foi a Kate com sua bizarra forma de amar.
Eu estava mofando em São Paulo. Sentindo uma tristeza velha e fodida na cidade do concreto. Foda-se! Peguei um ônibus sábado ao meio-dia e desci em Ilha Bela às quatro da tarde. O sol fritando todos os meus miolos. Ao meu lado, na poltrona, um mamute que comia e babava e fungava. Fiquei enojada, achei que o sujeito ia morrer sufocado e eu não poderia fazer nada, estava enojada demais para isso. A voz dele, falando no celular com uma tal de "gatona", era igualmente gorda. Tudo nele era gordo. Pegou um lanche, daqueles "naturais" cheios de maionese e frango, e começou a mastigar. Crunch, crunch, crunch. Acho que também tinha cenoura. Meu estômago queria sair pela boca, mas eu segurei.
Ai, ai, é tão bom viajar, fugir, esquecer.
O cheiro do mamute estava me matando, e nem era fedor. Simplesmente cheiro, só que eu não suporto o cheiro de uma pessoa estranha. Aquilo me irritou profundamente, mas, tudo bem, agüentei feliz até. Às vezes eu bufava, ia mais para o lado para não encostar nele, mas foi tudo. Dormi um pouco e o resto do tempo eu passei escrevendo. Um tipo meio Novos Baianos, chinelão de couro no pé, ficava me olhando.
Consegui concluir uma poesia chamada "Anne Díaz, duas vezes na Terra do Nunca – who killed Peter Pan?". Acho que ficou legal, mas não diz muito. Algo sobre a poeira vermelha da estrada, os amores vencidos e o vento. Em Caraguá eu mudei de lugar, fui lá para o banco da frente e avisei ao motorista que queria descer na balsa e que esperava que ela não afundasse. Tentei ligar para a Kate, mas só caía na caixa postal. Peguei a balsa assim mesmo.
Muito sol e pessoas marrons e uma tia vendendo cocada branca. Fiquei olhando para o chão e aquela balsa não saía nunca. "Deve ter quebrado, essa bosta!" Estava novamente bufando, mas não de ódio. Só queria chegar logo. De repente todo mundo começa a descer. Achei que íamos mudar de balsa e desci também, mas já havia chegado, reconheci a Ilha. Eu não vi porque fiquei o tempo todo sentada, olhando o chão e tentando não chamar a atenção de um bêbado que só estava esperando alguém olhar para ele a fim de começar um discurso nonsense, com aquela cabeçona cheia de pinga e sol. Um cachorro saiu correndo na minha frente, ele também queria chegar logo.
Aquele ar me deixou profundamente feliz. Maresia. Cheiro de sal e peixe e mar. Fui telefonar de novo, com uma blusa amarrada na cabeça para me proteger do sol forte. Peguei o endereço e um táxi, porque o ônibus ainda ia demorar vinte minutos para passar. Eu não tinha vinte minutos para esperar. A primeira pergunta do taxista foi: "você é de São Paulo?". Sim, São Paulo está estampada na minha alma demasiado urbana. Onde quer que eu vá, sou de São Paulo. Cor de nada, poluída, perdida. O táxi foi rápido e me cobrou dez reais mendigados – que me fizeram falta depois. Agradeci.
A Kate e o Ciccio estavam me esperando do lado de fora da pousada. Não pareciam tão felizes quanto eu, fato que não me importou nem um pouco. Dois suíços estavam com eles, vermelhos, cerimoniosos e estúpidos. Eu disse "olá" para os gringos e trocamos apertos de mão. Perguntei onde estavam todos, mas só André havia ficado – ainda assim, porque eu estava indo – e se encontrava no quarto. Fui até lá. Sua cara de bunda estava chegando no chão, depois entendi porquê. Não havia música – ninguém levou um rádio – e também não havia conversa ali. Ele estava chocado, traumatizado e frustrado naquele ambiente anêmico. Acho que algumas pessoas nascem sem alma. Desconfio que sim. Conseguimos sair dali, correndo, e conversar um pouco. Certos tipos de gente simplesmente não interagem com aquilo que temos dentro de nós, mas felizmente conseguimos criar uma unidade e cagar para o resto. Eu estava ali para me divertir, para tirar o mofo da alma e o bolor do coração. Nenhuma pessoa estúpida estragaria a minha viagem.
Combinaram um jantar e fomos todos até o mercado, inclusive os suíços. A Kate comprou duas chupetas e um pacote de bexigas, além da comida. Homens na cozinha e mulheres no quarto. Enquanto eles cozinhavam, fiquei lá no quarto ouvindo a Kate falar que havia dado o rabo para um nativo da região. Acho que o assunto não saiu disso. De vez em quando alguém entrava no quarto e batia na porta. Não, não estávamos trepando. Nunca estivemos. Realmente. Quando a comida ficou pronta, Ciccio veio nos chamar.
A mesa foi posta ao ar livre – a cozinha comunitária tinha cheiro de rato morto. O suíço menor, Kim, arregalou os olhos e brincou com os meus maus modos de pegar a comida. Eu estava com fome e a salada de macarrão virou uma mistura de tudo no meu prato. O suíço maior, irmão do Kim, quis tirar uma foto. Não me lembro se eu sorri, acho que não. Depois colocou a máquina numa cadeira ao lado da mesa e não se ouvia uma palavra, todo mundo mastigando agrião com salada de macarrão. Ao fim do jantar, Kate desembestou a rir. Foi chamada de idiota ou algo assim pelo suíço menor. Ele usou seu próprio idioma – francês, alemão, sei lá –, mas o tom foi perfeitamente compreensível. Linguagem universal. Levantei e levei o meu prato para a cozinha. Em seguida todos levantaram e levaram seus pratos. Foi um jantar bem sem graça. Lavamos a louça e fomos para o quarto.
De repente, um dos suíços surge na porta perguntando da máquina. Ninguém sabe, ninguém viu. Provavelmente ficou achando que fomos nós, mas muitas pessoas estranhas passaram pela mesa durante o jantar. Havia sido roubada.
Dei uma calcinha de puta para a Kate, com lantejoulas roxas, lacinhos pretos e só um fio atrás. Ela adorou e me beijou e gritou. Usou-a naquela noite mesmo. Grande noite. Fomos até o único lugar possível: uma vilinha de merda, com música de merda, e pessoas de merda. Tentei beber, mas não estava no espírito. Saí para andar com André e Ciccio, fomos até o mar. Logo voltamos, estava ventando muito e nós queríamos ir para a pousada, mas a Kate havia sumido com o caiçara e a chave do quarto. Fomos andando e tentamos uma carona. Um carro parou mais adiante e nós corremos, quando chegamos perto, o cara acelerou e saiu cantando o pneu. Dei risada e xinguei. Pararam de novo. Um bando de otários dentro do carro, dando risada. Falaram que só "cabia a mina". Olhei para aquelas caras e quis vomitar.
Chegamos a pé na pousada. Nada da Kate. Foi xingada de tudo quando é filha da puta. Então ficamos conversando, levando picadas de borrachudo e esperando. Eu e o André pegamos emprestada uma bicicleta que estava encostada na varanda de um quarto e eu fui na garupa. Fazia muito tempo que eu não andava de bicicleta, pareceu muito divertido, e aquela tinha até cestinha. Fomos passando em todos os buracos e pensamos em colher flores e cogumelos, mas só pensamos. Voltamos e tentamos de tudo para entrar no quarto: arrombar a porta com cabo de vassoura, arrancar os parafusos da janela com faca de cozinha, pular o telhado, acordar o alemão dono da pousada. Tudo em vão. Pensei em chamar a polícia para dar uma busca. "Olá, seu guarda, nossa amiga esquizofrênica está desaparecida com a nossa chave dando o rabo em algum lugar e nós queremos entrar". Deixei para lá. Outro alemão louco saía toda hora do seu quarto e ficava observando a nossa agitação, sem entender nada. Tinha cara de psicopata.
Então eu fui com Ciccio para a praia e sentamos num banquinho. Aí ele fala para eu olhar para trás. Não enxerguei nada, mas ouvi uns latidos de cachorro. Ciccio disse que era o André. Tentou chegar até nós e os cachorros correram atrás dele. Perdi a cena, mas ri só de imaginar. Continuamos ali, olhando as ondas quebrarem na praia e ouvindo o vento. Quando a Kate aparecesse, eu estava preparada para lhe enfiar um murro bem no meio das fuças.
Ciccio sugeriu que voltássemos, talvez o André tivesse alguma notícia; e lá estava ela, tentei não olhar. Poderia ter arrebentado aquela cara, mas ela é louca, teria chamado a polícia. Poderia, também, ter dito tudo o que eu penso a respeito de sua pessoa, mas fiquei com dó. Ela estava "cheirada". Na praia. "A Kate é péssima, eu sei que a Kate é péssima; foda-se a Kate..." – palavras dela. Eu não disse nada, ela já havia dito tudo. Acho que todos tivemos pena, no fim. Mas eu ainda fui dormir rindo, porque era patético demais.
Deitei na cama de casal com o André. Ela trancou a porta por fora e arrastou o Ciccio para se confessar. Acho que foi absolvida. É sempre assim com os filhos da puta. Dormi e não vi mais nada. Nenhuma pessoa estúpida estragaria a minha viagem.
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Acordamos tarde no dia seguinte e perdemos o café da manhã. Nada havia acontecido. Nada mesmo. Dia de eleição, mas não votávamos ali. Dia de decidir o futuro do país e lá estávamos nós, o país que se dane! Pegamos dois ônibus e fomos justificar o voto. Depois, praia. Uma praia linda, areia branquinha e mar transparente. Eu com uma camiseta da seleção da Argentina, do Ciccio, para não arder no sol. Comemos uns lanches enquanto levávamos mais picadas de borrachudo.
Fui para o mar, adoro água. O sol estava fervendo, mas nem me importei. Fiquei na água, brincando com o Ciccio. Eu subia no pescoço dele e depois caía. Estávamos felizes. Eu não lembrava de nada, ninguém. Ali era só eu e o mar e o sol, além das gaivotas. Um caiçara apareceu com pranchão e remos e a Kate pediu para deixar a gente dar uma volta. Depois ficou com medo e eu fui sozinha. Abri as pernas e sentei, uns pentelhos escaparam pelas laterais do biquíni. Eu e o Ciccio começamos a dar risada, o garoto só ficou olhando, acho que nunca tinha visto os pentelhos de uma mulher tão de perto. A prancha balançava, balançava, e às vezes virava. Aí então eu ficava de quatro e subia novamente. Não fomos tão longe, mas nos afastamos bem da beira da praia. O sol bem de frente para mim, eu recebendo tudo aquilo e trocando energias com a água. Foi um momento de paz. Via a Kate, o André e o Ciccio bem longe, até que sumiram do meu campo de visão. Continuei lá, em cima da prancha. O garoto não falava nada, nem eu. Quando voltamos, ainda continuei na água. Ele me levou até a beirinha da praia. Desci e caí com a bunda na areia. Levantei e caí de novo. Fiquei com o cu atolado de areia.
Enquanto isso, Kate estava lá em cima fazendo topless e procurando um público para assistir aquilo. Seios bonitos. Muito bonitos, aliás. Arranquei a parte de cima da minha roupa e vesti a camiseta da seleção da Argentina. Fiquei na sombra, já tinha enjoado do sol. Na volta, conseguimos uma carona. Um tiozinho passou de fusca e nos levou até a pousada. Tomei banho e fui comprar chocolate e cerveja com o André. O caixa era simpático e queria se mostrar semelhante. Eu fiz uma pergunta:
– Aqui não tem nenhum lugar que toca rock?
– Ih, aqui? Não, não, aqui não toca o que é bom...
– Ah, então tá, obrigada.
Voltamos e ficamos bebendo lá fora. O Kim apareceu do nada e se sentou com a gente. Ficamos conversando, falando besteiras. Eu e o meu inglês picotado e ele e o seu inglês de fita cassete. Estava animado com as "mutchachas". Antes havia estado na Venezuela, na Argentina, no Chile e no Peru. Me achou branca demais, mas quando ele levantou a bermuda, era rosa-europeu. Fui até o quarto dele buscar marijuana. Não achamos e voltamos. Fomos andar na praia. Eu, Kim, Ciccio e André. Nós dois fomos mais atrás, conversando. Eu estava gostando de conversar com ele, ele gostava de fazer "uh" para as besteiras que eu falava. Era engraçadinho. Subiram numa rocha e eu fiquei patinando lá embaixo. Então ele voltou e me ajudou. Sentamos e ficamos olhando o mar escuro e as luzes ao longe. Eu disse que não queria ter uma família. Ele disse que também não. André e Ciccio disseram que iam embora e perguntaram se a gente ia ficar. Olhei para a cara do Kim e ele fez cara de quem queria ficar, mas eu não quis. Fui no quarto dele pegar água, a nossa tinha acabado. E daí, eu não entendi qual foi, mas ele me deu a água e começou a mostrar um bilhão de coisas. Livros, cinzeiros peruanos, apostilas de inglês, dicionários, roupas... Eu fiquei pensando que ele estava esperando eu agarrá-lo ali, no quarto. Peguei a garrafa de água e ele perguntou se era tudo. Ficou olhando e torcendo a boca. Fazendo "uh". Acho que eu ia gostar desse "uh" no meu ouvido. Era bonito, mas era pequeno. Eu não gosto de gente pequena. Tinha cabelos claros de anjo, olhos azuis e traços extremamente delicados, era quase um rosto de mulher. Fiquei em dúvida sobre beijá-lo, mas consciente de que se não fizesse isso, não conseguiria dormir em paz.
Esperei ele fechar a porta e o encostei na parede. Ele não sabia o que fazer e me deu o beijo mais ridículo que eu já vi na vida. Os suíços não têm língua. Achei aquilo um horror e puxei ele para o nosso quarto. Sentei na cama e ele ficou do meu lado. Depois eu mandei ele embora. Good night. Ele perguntou como se falava: "boa notche?"
– Boa noite.
– Boa notche?
– É, tchau.
Fechei a porta e fiquei achando que não deveria tê-lo beijado. No fim, deu na mesma. Suíços não sabem beijar, só servem para fazer chocolate Nestlé.
Na manhã seguinte, eu e o André ficamos maquinando sobre como roubar o quadro dos Beatles 65 que estava decorando um dos quartos. O do nosso quarto era de uma caranga velha. Tínhamos tentado na noite anterior, mas achamos melhor pedir, porque nós não sabíamos como os alemães agem diante de um roubo. A máquina dos suíços já havia sumido bem quando eles estavam conosco, então achamos que roubando o quadro estaríamos, por tabela, roubando a máquina e a pousada inteira, coisa que seríamos incapazes de fazer. Além do que, o quadro era grande demais, seria difícil sair com ele dali sem chamar atenção. Do lado de fora da porta, havia um bilhete colado.
Kate, Por favor, compareça com as suas visitas na recepção para acerto das diárias.
Boris
Boris era o dono da pousada. Falei para o André fazer cara de Beatle – se bem que ele já estava com aquele cabelo – e falar que nós éramos muito fãs dos Beatles e pedir o quadro. Ou então propor uma compra. Fomos lá, a Kate ainda dormia. Boris disse que sabia que o André lembrava alguma coisa, com aquele cabelo em forma de tigela, e ficou rindo. Hohoho. Ficou rindo feito um porco alemão e não nos deu o quadro nem quis vender. Perguntou se a gente ia roubar e disse algo como "vocês têm que merecer ganhar". Certo, ele nunca tinha visto a nossa cara e estava desconfiado de nossas pessoas. Dissemos que pretendíamos mesmo roubar o quadro, mas ele entendeu como piada. Era verdade. Fez uma pegadinha. "As meninas ali – três caiçaras que cuidavam da pousada – querem tirar uma foto de vocês". Olhamos desconfiados para a cara delas, estavam vendo um jornal e rindo de cabeça baixa. Ele havia combinado isso. Então falou: "Só que a minha máquina está sem filme, vocês tem uma máquina para emprestar?" Não fez sentido nenhum, sendo que eram elas que supostamente queriam uma foto nossa – alemães são burros ou o quê? Eu disse que a Kate tinha uma, nós, não. Deixou para lá as fotos e sua última pergunta foi sobre o meu cheque ter fundos. Falei que tinha e depois disso ele começou a brincar e a me elogiar. Falou que se quiséssemos o quadro, ele fazia uma troca. Era só a gente levar um outro para ele pôr no lugar, numa próxima vez. E no fim de tudo, chamou o André de canto e comentou sobre o sumiço da máquina dos suíços. Dissemos que estávamos juntos, realmente, mas que não tínhamos visto nada. Ele se desculpou, dizendo que era o seu papel investigar e nós fomos embora. Disse gostar de pessoas que "se apresentam e mostram a cara".
Eu não queria voltar para São Paulo, mas ali já havia dado. Eu não agüentaria ficar um minuto mais com a Kate, só estava enrolando um pouco e tentando respirar algo que não fosse fumaça de escapamentos.
Kate e Ciccio foram ao mercado e eu fiquei caída na cama com o André. Demoraram tanto para voltar, que nós resolvemos cozinhar um macarrão na cozinha, mesmo com cheiro de rato morto. De cima da escada eu vi os suíços e as caiçaras entrando na cozinha. Desistimos e largamos as latas de molho e tudo o mais do lado de fora do quarto. Quando a Kate chegou, começou a guardar tudo e a limpar o quarto. Eu falei para o André que nós passaríamos mal se comêssemos aquela comida. Ele concordou e estourou uma bexiga que estava no chão com o pé. A Kate estourou outra. Troca de tiros. Pegamos nossas mochilas e fomos embora, eu e o André. Kate me disse para ir com deus. Não desejei nada a ela.
A última vez que eu mandei alguém "ir com deus", na verdade eu quis dizer: "vá pra puta que te pariu, seu filho da puta!" Exatamente isso. E a mensagem foi bem entendida.
Eu e o André saímos debaixo de um sol escaldante e tentamos ligar na rodoviária para saber do horário de saída dos ônibus. Não conseguimos nada e ficamos contando os nossos últimos centavos. Quase não dava para pegar o ônibus até a balsa. Ninguém quis nos dar uma carona, nem a freira que passou de jipe. Essa vai arder nas profundezas do inferno!
Já era fim de tarde quando pegamos a balsa. Eu teria pulado na água e morrido ali, atropelada pela balsa, qualquer coisa para não voltar para São Paulo. O André quis ir na ponta, vendo o mar. Eu fiquei na sombra e logo desisti dela. Meti a cara no sol e fiquei sentindo as gotículas de água salgada que espirravam no meu rosto, as últimas lembranças que eu levaria dali. O ônibus para São Paulo demorou meia hora para passar e nós não tínhamos cigarros. Xingamos as pessoas saudáveis e sem vícios, surfistas queimados de sol com areia na bunda, e embarcamos.
Desci na minha cidade, quase da mesma cor de fantasma de quando saí, e fui andando a pé até o ponto de ônibus, respirando os gases dos escapamentos dos carros e enchendo o pulmão de monóxido de carbono. Tendo a certeza de estar voltando exatamente para o mesmo ponto de partida.
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04:23 pm - Take 33 Oi. É, eu sei. É só você me ligar e eu vou, não importa onde. Não precisa nem chamar duas vezes. Mesmo porque, você jamais insiste. Não precisa. Se você insistisse, eu certamente não iria. Mas hoje o celular não vai tocar. Não este celular. Hoje nada vai tocar para Anne Díaz, cansada de tudo, reclamando da vida num banco duro de ônibus que sacoleja pra lá e pra cá. E você bem do lado, ouvindo tudo, com esses seus olhos verdes caídos me olhando sem dizer palavra. Tudo bem, porque depois você me ensinou a tocar "White Rabbit", e então eu esqueci que estava te odiando. Disse que em 1960 "White Rabbit" era o nome de um ácido. Meu coração enxugou as lágrimas e sorriu. Você na guitarra e eu no violão. Nós dois sentados no chão. A minha guitarra vermelha. A minha música dos últimos cinco dias. Seis acordes apenas. Até eu consigo tocar. Seis acordes sob a luz da vela que chora nas cores do arco-íris e a voz psicodélica da Grace ao fundo. Anne no país das maravilhas. Uma lata de cerveja para acompanhar e mais algumas canções. Nada de cigarros. A caixa de Marlboro vazia, e, o que mais? – fico pensando. A luz da vela desenhando os seus contornos. Eu vendo tudo isso sem você saber. Podia pensar o que eu quisesse. Várias coisas passando pela minha cabeça, mas nenhuma ficando. Eu tentando acompanhar o movimento dos seus dedos. Um calo bem no dedão, de tanto você arrancar a pele. Mas as suas mãos são lindas e macias. Ou pelo menos é assim que eu as sinto. Você gosta de cantar e até eu cantei. Algumas canções velhas do Velvet e dos Stones e dos Beatles. Tudo parecia leve e úmido. Estava quente ali dentro. Depois cansamos e deitamos. Ah, esta Anne que algum dia te amou dizendo "eu quero te chupar". Não estava bêbada nem nada. Um desejo sincero. Você abaixando e afastando a minha calcinha para o lado. Porque você nunca tira a calcinha realmente. "Espera aí". Deixamos de ser inconseqüentes, desde sábado. "Onde está a camisinha?"
Segunda-feira. Exatamente dois dias. Ninguém coça a cabeça depois, mas também não se lembra de nada com muita emoção. Não estou acostumada a não receber a sua porra quente que depois esfria em cima de mim ou de onde quer que vá parar. E a camisinha ficou lá, guardando tudo o que deveria ser meu no saco de lixo. Olá, vida sem graça! O amor não pode ser de plástico. Não este.
E depois eu beijei a sua boca com vontade no metrô. Uma vontade de ontem, quando eu olhava para você e não conseguia ficar seca. E o seu pau será sempre lindo e caberá em mim como nenhum outro. Se bem que ontem batia fundo e doía. E eu não me importava. Eu não ando me importando com muita coisa, já disse. Podia ter ido mais fundo, com muito mais força. Minha cabeça batendo na parede e alguma coisa a ponto de explodir dentro de mim. Um gozo de meses que nunca vai sair apenas porque eu jamais vou poder me jogar nos seus braços sem levar o maior tombo da minha vida. Anne Díaz, vinte e três, uma grandessíssima covarde!
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O celular tocou bem na hora em que eu estava escrevendo um e-mail para ele e falando sobre como a noite estava legal para sair e beber. Uma noite agradável, nem frio nem calor. Então ele disse:
– Eu estou aqui na Paulista.
E eu disse:
– Já estou indo.
Fui voando, pensando na noite de sábado na Funhouse. Cheguei em quinze minutos, fiquei feliz por ele ter me ligado. Lá estava, sentado na mesa do bar. Não fez cara de nada quando me viu, apenas sorriu. A Kate também estava lá, de chinelos e com a cara acabada, comentando sobre a sua noite de domingo na Lôca. Noites que não me pertencem mais. Noites que o tempo dragou.
Ficamos ouvindo todo aquele papo furado sobre as bichas montadas e os estilistas veados, e matando a cerveja, era nossa única opção. Cabelo ensebado e algumas palavras ao vento. Ele disse que não tinha lavado a cabeça, mas que tinha tomado banho. Ninguém acreditou muito, mas, enfim. Eu também não tinha lavado a cabeça, mas só a cabeça, o resto estava limpo.
Quando eu sentei naquela cadeira de plástico, não achei razões para estar lá, exceto que eu gosto de estar com ele. E um trator fazia um barulho enorme e empurrava um tampão na rua, abrindo uma fossa bem do nosso lado. Vi uma barata sair correndo, desesperada. Cheiro de merda por todos os ares. Resolvemos ir beber lá dentro do bar. Nada muito diferente, aquele cheiro de fritura e gordura de mil anos atrás. Kate pediu a minha jaqueta emprestada e saiu para fumar um baseado na rua, junto com a Mari. Nós continuamos sentados na mesa, jogando conversa fora e aterrorizando crianças virgens – Ciccio, que também havia ficado. Praticamente tudo o que a gente fala tem sempre alguma forte conotação sexual. Não podemos evitar.
O pessoal foi embora e nós pedimos mais uma cerveja. Depois fomos para casa. A minha casa. Quando acordamos, chovia. Uma chuva leve e calma. Eu gosto de chuva. Tomei banho e em seguida ele tomou. Fica bonito de cabelo molhado e limpo.
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04:21 pm - Take 32 – Legal que você veio, eu tava te procurando...
E lá estava eu de novo na Funhouse. Eu e meu vestido amarelo de bolinhas laranjas. Eu e minha bota preta. Porque sábados coçam. Uma falsa impressão de que todos na cidade estão fazendo alguma coisa interessante, diferente. Pura ilusão, é claro. Mas como eu ia dizendo, sábados te dão um chute no rabo e te jogam na rua. Acho que eu preferia ter ficado em casa, olhando o branco do teto e ouvindo música; pensando nas luzes acesas em todos os lugares do planeta, nas putas e nos travestis, na vida, no néon na porta das casas noturnas; escrevendo mentalmente livros inteiros, sem fim e sem começo. Só que não consegui ficar e me lancei em mais uma grande noite vazia. Sorrisos murchos, que já não vêm da alma, mas estouram nos lábios como espasmos passageiros. Buracos tão fundos que nada mais importa. Talvez seja esse o problema: nada anda me importando.
Peixes não têm sentimentos, dizem, mas têm espinhos; de modo que você jamais poderá comê-los sem temer que um fique atravessado bem no meio da sua garganta. Então lá estava eu de novo, peixe com espinhos. Só porque o Rey me ligou.
Cheguei às duas da manhã, o bar estava lotado. Antes estive bebendo no ateliê. A Kate estava lá. Estava bonita. Vestido azul, meia-calça preta, sapato preto e um casaco com pêlos na gola. Parecia francesa, com seu nariz pequeno e sua pele alva. Resquícios de qualquer coisa me sacudiram. Deixei pra lá. Ela queria algo para se animar. Me perguntou se eu falaria com as travas que estavam na porta de um bar. Tudo bem, consegui dois papéis. Ela ficou feliz e eu fiquei feliz porque ela ficou feliz. Mas não havia motivos, realmente, para ficarmos felizes por tão pouco.
Vamos lá, Anne, apenas mais uma noite nesta São Paulo desvairada.
Eu queria ver o Rey. Só dar uma olhada, saber se ainda era o mesmo, pegar um cd que ele me havia prometido. André me chamou para pegar uma bebida no bar, mas eu tinha que ir para a pista, desesperadamente, nem que fosse só por uns segundinhos. A banda do Rey já estava tocando, dava para sentir a vibração. André disse que entendia, que era o rock’n’roll me chamando. Não era. Várias pessoas em frente ao palco; fui abrindo caminho e empurrando sem pedir licença. Achei que todos deveriam entender e sair logo da frente, como quando o mar se abriu para Moisés passar. Lá estava ele, no cantinho, com sua guitarra e o seu cabelo (maior desde a última vez em que nos vimos). Quanto tempo mesmo? Bom, não importa. Fui até o palco só para dar um "oi". Fiquei um pouco ali e em seguida saí, fui atrás do André, agora eu precisava beber.
Noite tranqüila. Eu sabia que a noite seria tranqüila, assim como sei, também, quando será um inferno. Depende muito do meu estado de espírito; e, de repente, eu estava em paz. De repente eu estava sóbria. De repente eu estava sem nada. Não existe mais entre a gente aquele sentimento do começo. Naturalmente não existe mais, acho que o nosso ciclo foi cumprido. E foi legal, legal pra caralho enquanto durou, mas acho que acabou. E, ali, naquele bar, não havia mais nada para mim.
Eu não estava muito afim de beber porque havia passado praticamente uma semana inteira na cama. Noites inteiras ardendo em febre, delirando e suando frio. Fiquei de olho na Kate, não havia ninguém melhor ou mais interessante para eu olhar. Eu gosto dela, apesar de tudo. Não fez outra coisa a noite inteira que não passar no banheiro e comer um cara que estava por lá, desavisado. Um que uma vez derrubou a gente de cima do palquinho da Lôca. Pelo menos ela estava feliz, dentro do seu mundo entorpecido. Muito pior quando ela não encontra nada que a mantenha entretida.
Eu e o Rey ficamos sentados na poltrona de zebra, bebendo soda com o que deveria ser uma vodca, mas estava mais para água. Que porra de vodca as pessoas vendem por lá, afinal?! Estava meio apertado ali. Era uma poltrona e nós estávamos muito juntos, portanto. Ele parecia ocupado, observando uma garota que lia um livro e ria sozinha no sofá da frente. Disse que era afim de dar uns tapas na bunda dela e ficou me mostrando como seria. Tatatá. Com três dedos, ou quem sabe a mão inteira. Sorri só para constar.
Acho que a melhor parte da noite foi ficar ali, sentada com ele, falando besteiras. A gente não precisa falar nada realmente para gostar de estar junto. Nada como ficar montando personagens estúpidos: escritora, músico; fotógrafa, produtor; editora, punheteiro; drogadinha de merda, bêbado... Foda-se! E eu também não conseguia parar de olhar para aquela garota.
Depois fomos pegar mais bebida e nos mudamos para o sofá. Ele conversou um pouco com a garota que ria sozinha. Se ela quisesse poderia tê-lo devorado vivo e cuspido a cabeça fora – ou, quem sabe, o contrário; nunca dá para prever exatamente. Ela parecia meio sozinha, sentada ali, mas acho que ela gosta de ficar sozinha. E eu gosto das pessoas que sabem ficar sozinhas sem parecerem umas coitadas. Odeio gente que anda em bandos.
Lá no sofá a gente deu uns beijos, eu e o Rey. Mais afeto do que tesão. Eu fiquei brincando um pouco com o pau dele e ficamos por ali, mas não parecia realmente importante para nós estar ali. Eu não sei. Sentei no colo dele e ele enfiou a mão por baixo do meu vestido e achou a minha buceta; devia estar molhada, mas não tanto. Já estava amanhecendo e aquela manhã parecia melancólica, mesmo com a mão dele sob o meu vestido. Achei melhor fechar a janela de madeira que estava atrás de nós, para fazer de conta que a noite não estava acabando. Continuamos ali, quase virando o sofá. De repente estávamos os dois cheios de chiclete derretido. Tinha chiclete grudado na minha perna e bota, e na calça dele também. Uma merda! Tentamos tirar, mas não conseguimos. A jukebox ainda estava ligada e o Ciccio apareceu sapateando em cima da mesa, com seus óculos de Lou Reed e sua calça boca de sino (ele havia dado uma passada no banheiro com a Kate). Então todos desceram e só sobramos nós dois ali. Um cara de saco cheio apareceu pegando as garrafas vazias de cerveja e atirando-as no lixo, então desligou a jukebox e disse que já iam fechar. Fim de noite. Fim de tudo.
Resolvemos descer e Rey foi procurar a bolsa. Eu fui para a pista, que ainda estava aberta. Estavam todos por lá, Ciccio, Kate, e mais uns amigos. Fiquei dançando. A Kate veio e me deu um beijo que pareceu durar horas. Eu não me lembro de ter gostado de nenhuma outra garota assim. Ficamos dançando até que cortaram o som da pista também. Agora era "tchau" mesmo. E ninguém parecia querer ir para casa. Muito provavelmente porque ninguém tem casa. Uma casa para chegar e ficar pelado e levar amigos e ligar o som alto e fumar maconha. Todo mundo mora com pai, mãe, irmão, irmã, gato, cachorro e papagaio. Eu não queria ir para a minha casa. Na verdade, não queria ter saído, mas uma vez que já estava fora, não tinha nenhuma vontade de voltar, só não tive outra opção. Paguei a comanda e fui embora. O Rey ficou lá, e a garota que ria sozinha também. Deixei eles lá. Talvez tenham conseguido um belo fim de noite, porque a minha era um vazio só. Fui embora junto com os meus amigos, e a Kate estava gostando de pegar na minha bunda. Costumávamos fazer isso quando éramos... bom, quando tínhamos intimidade para isso. O que eu mais gosto nos relacionamentos é essa liberdade de poder chegar e pegar o outro onde der na telha, como se fosse tudo seu. Dá uma sensação boa.
Pegar metrô e ônibus, por outro lado, foi uma bosta; por mim eu teria embalsamado naquele sofá. No entanto, não dormi no ônibus, como sempre costuma acontecer. Eu também havia passado no banheiro com a Kate. Mas, assim que cheguei em casa, caí na cama, consciente de que tão cedo não acordaria, porque eu não queria. O André me disse que foi uma noite agradável. Para mim foi só uma noite, como tantas outras. Mais uma. Uma noite que acaba assim que os primeiros raios de sol surgem no céu. É como ter tudo derretendo. Por isso eu fechei a janela. E fechei o coração. E fechei os sentidos para a vida lá fora. Mas não pude evitá-la. Então respirei fundo e encarei. Uma dor filha da puta em algum lugar, mas sempre passa. Porque "o insuportável é que nada é insuportável". Assim disse Rimbaud num filme, enquanto Verlaine agonizava de dor após ter um punhal cravado na palma de sua mão pelo companheiro. Não sei se isso aconteceu realmente, mas é uma bela cena de amor. E o meu coração também tem muitos punhais cravados nele, dos mais vagabundos aos cravejados de diamantes.
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02:03 pm - Take 31 Vejam de novo. Mais de perto. Mais perto. Mais. Anne Díaz. Um belo amontoado de cinzas. O que foi que houve? A verdade passou lavando tudo como uma onda de maremoto. Todos os castelinhos de areia se foram. Anne e seu coração também de areia. Coração vira-lata. Batendo sempre para quem não deve. Dando pulinhos da mais besta alegria. Cerrem-lhe as pernas. Agora. Um coração aleijado ocupa menos espaço. Cerrem-lhe o coração ao meio. Ondas de verdade derrubando os alicerces de castelos de mentira sem príncipes encantados para morrerem dentro. Um dia isso tinha que acontecer. Anne, sua sonhadorazinha de merda, achou mesmo que ele fosse ficar com você? Não. Não achou nem desachou porra nenhuma. Acreditou nos sorrisos daquela garota? Há que se desconfiar de quem ri daquele jeito. Agora fica aí, caída em cima da cama, segurando o peso da decepção. "Espero não ter te decepcionado", ele disse. Espera muito, meu caro. Conta demais com o meu amor sem saber sequer se ele existe mesmo. Não existe. Nunca existiu. Ouviu isso da minha boca? Não ouviu. Foi apenas o uivo do vento. Anne só acredita no vento, a partir de agora. Seu silêncio corta como uma navalha enferrujada. Gotas de sangue pingam do meu coração formando rosas no mar. Ah, o mar... Você gosta do mar? Sim, você gosta do mar. O mar não tem fim e a nossa história acaba aqui. E nem é uma história de amor, mas é sobre ele. De dentro do mar dá para ver as gaivotas voando no céu, que para mim continua a ser um lugar azul e distante. Mas não é assim com as gaivotas. Eu respeito as gaivotas, elas alcançam o céu, ou o que eu imagino que ele seja. Às vezes a gente pensa que alcançou o céu, mas está ainda muito longe dele. Vai ver não existe céu. Vai ver não existe nada. Nenhum lugar para almas boas como a sua descansarem em paz. Vai ver as gaivotas voam num espaço virtual. O céu não passa de uma linha que habita os sonhos dos poetas e dos idiotas. Agora que você já sabe disso, pegue uma pá e junte o que sobrou de mim. O que sobrou de nós. E esta nunca foi uma história de amor. Ou você pensou, caro leitor, que fosse?
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02:02 pm - Take 30 Sábado de novo. Vinte e três. Já estou com vinte e três anos e a minha vida simplesmente não aconteceu. Não sinto nada. Nem raiva, nem frio, nem calor, nem medo, nem dor. Sei que se isso não é, se parece muito com o fim. Então tudo bem. Não deixa de ser um alívio. O fim é um grande alívio. Pelo menos você sabe que a sua dor – aquela que eu já nem sinto, mas muitas vezes senti – não pode aumentar mais. Quando se chega ao fim, tudo o que você tem a fazer é contar os dias para que a ferida aberta vire uma linda cicatriz. E um dia você vai poder olhar para ela e sorrir, afinal, saberá que viveu alguma coisa. Cicatrizes são histórias de vida. Só isso. A partir daí, tudo vai passar. Portanto, saia esta noite e sorria. Nem que seja de mentira. Nem que seja um sorriso pregado na cara com tachinhas – aquelas mesmas que você colocava na cadeira dos seus amigos. É isso aí. Foda-se a chuva. Passe um batom para dar vida a esta cara pálida e não abaixe a cabeça. A franja, tudo bem, que lhe tape os olhos, só não se esconda da vida e não esqueça de sorrir quando achar que encontrou alguém que ele não foi e ela também não foi. Seus dias ficaram assim, eu sei, de repente sem nada. Mas você ainda pode tomar cinco reais emprestados, juntar com o que você tem – você ainda tem alguma coisa? – e cair na noite. Porque a noite é um corpo em queda livre. Agarre-se a ele. Agarre-se a tudo o que puder. Lembre-se: não vai durar para sempre. Sequer vai durar. Por isso, viva o seu tempo. Take your time. Escrevendo no ônibus e no escuro. Vidros embaçados como a vida. Alguém me empresta um papel? Não, não há papel. Apenas velhos mofados e um cheiro de azedo no ar – São Paulo fede. O ar de São Paulo é podre. E você é a única louca que precisa escrever. Torce para o ônibus dar voltas, errar o caminho, não chegar. Precisa falar. Escreve em folhas de cheque – não há dinheiro na conta mesmo. E se não tivesse o cheque, seria no corpo. E se não tivesse uma caneta, seria com o próprio sangue. Já escreveu com o sangue, lembra? É a sua única chance. Precisa escrever, porque é único meio de se livrar de tudo o que não cabe dentro de si.
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02:02 pm - Take 29 O frio chegou e ficou. Se instalou bem aqui, debaixo do meu nariz. Eu desisto. Desisto das pessoas e do amor. Chega. Eu não lavei nem a cara ainda – agora são quase oito horas da noite. Trabalhei em casa. Tá tudo cinza, estranho e desconexo. Me avisem quando algo voltar a fazer sentido.
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02:00 pm - Take 28 Abri os olhos de repente. Não estava em casa. Parecia que estava voltando de algum lugar que não sei onde é. Uma viagem longa e silenciosa, escura. Uma espécie de morte. Reconheci o lugar, o ateliê de uns amigos. A última coisa de que me lembro é alguém falando “tira a bota dela”.
Fui para a Funhouse, uma casa que abriu há algum tempo. Depois de desligar o telefone, eu me sentiria muito mal se eu não fosse para algum lugar, qualquer um. O detalhe é que eu me sentiria mal onde quer que eu estivesse, só que eu não saquei isso de imediato.
Saia preta, cinto, camiseta preta, bota preta, casado de pelúcia branca. Camiseta preta, uma merda, troquei pela blusa de oncinha. Vamos lá, Anne, será legal. Vamos lá, garota, você sempre soube que ele tinha uma namorada, não adianta ficar aí com essa cara.
Estava muito frio, garoando, e eu simplesmente não estava sentindo nada. Fui informada de que a Kate também ia. Não achei nada.
Metrô é um saco, fica todo mundo olhando pra tua cara, tentando tirar conclusões sobre a sua pessoa. Nem sentei, fiquei de pé fazendo cara de merda, revirando o olho e bufando. Saltei no Tatuapé. Os três já estavam lá: Ciccio, Mariana e Kate. Olhou para a minha roupa, me deu um abraço e falou "e aí, mulher!" Nada mais distante, horrível e degradante. Estava feia e eu quis dar um soco na cara dela. Rumamos para a Consolação. Me contou que o seu avô estava internado, foi encontrado degolado no banheiro, tentativa de suicídio. Fiz um comentário irônico, ia falar o quê?
Ainda era cedo e paramos num bar. Tomei a minha vodca e a do Ciccio. Ah, sim, esqueci de mencionar que eu saí de casa decidida a beber. Muito. Conversas idiotas e pessoas idiotas. Um imbecil bêbado perguntou onde ficava um lugar que eu nem entendi, mas mandei ele entrar à esquerda no banheiro. É impressionante como eu atraio todo o tipo de gentalha. Depois ele voltou à nossa mesa, para falar qualquer coisa, e a Kate berrou:
– QUEM TE PERGUNTOU?
– O quê?
– ALGUÉM AQUI TE PERGUNTOU ALGUMA COISA?
Ele voltou para a mesa dele, se juntou ao seu bando e continuou olhando para a minha cara. Um cachorrinho entrou debaixo da nossa mesa. Parecia muito superior a todas as pessoas que se encontravam ali.
Já cheguei meio bêbada na Funhouse. Bêbada e explodindo de tanto sarcasmo.
Praticamente abrimos o lugar. Fui dar uma olhada e pedi mais uma vodca.
– Vodca com gelo?
– É, com soda fica quanto?
– Sete e cinqüenta.
– E só a vodca?
– Cinco e cinqüenta.
– Me dá só a vodca.
Eu não tinha dinheiro para ficar bebendo refrigerante. Não estava lá para isso.
O andar de cima tinha uma jukebox. Fizemos uma enorme seleção de músicas e ficamos dançando Bowie, Velvet e Stooges... Evitei a Kate. Porque sim. Ela ficou sentada na mesa, com cara de no fun. Pessoas foram chegando e eu matei a minha vodca e fui bebendo tudo o que passava pela minha frente. Quando você não tem dinheiro, e quer beber, apela para os drinques alheios e mistura tudo.
O lugar já estava bem cheio quando eu me sentei para conversar com a Kate. Continuava com o rabo colado na mesa, ou colado na cara, não sei. Não me lembro o que eu falei, só sei que as lágrimas começaram a rolar e não paravam. Todo mundo vendo aquilo. Anne, uma puta pessoa sincera. Anne, uma grande derrotada. Ela me explicou tudo. Que não era nada daquilo. Nunca foi. Mas eu acreditei. SABEM, EU ACREDITEI. Enquanto as lágrimas caíam, falei que eu gostava mais dela que de todas as outras pessoas juntas. Não sei o que eu quis dizer. Fomos ao banheiro. Ela disse que precisava de um homem. Um homem? Pra quê?
A banda da noite estava tocando, o Butchers’. Eu gosto do Butchers’. Encontrei o meu amigo moicano e o infernizei a noite inteira falando a mesma coisa sem parar: que eu havia ligado para ele e que eu pensei que ele já tinha estreado como host de uma outra casa nas noites de quinta. Fiquei lá dançando e saí da pista antes do fim do show, não me lembro com quem. Acho que o meu amigo André me convidou para ir ao bar tomar uma cerveja. Arrasa! Você agüenta. Se você agüenta dois chutes no rabo ao mesmo tempo, também agüenta um coquetel alcoólico numa noite fria, vazia, sem nada que te faça sorrir. Aí me vem o Ciccio dizendo que a Kate quer comprar padê. Os bêbados são pessoas que não têm noção de nada. Saí pelo bar fazendo esta simpática pergunta: "sabe quem tem padê pra vender?" Eu nem falo essa palavra, gíria ridícula de bicha-frita. Mas ontem falei, inclusive para aquele cara lindo, que é lindo e sorriu e disse que não sabia. Foi simpático. Desisti e voltei para a pista. Catei um moleque e saí arrastando ele para o banheiro, ele tinha um cabelo legal. Pensei em afogá-lo na privada assim que ele disse que estava bebendo água, e que não curtia álcool. Como assim não gosta de álcool? Desisti de afogá-lo e fui em frente. Até que era bonitinho, o menino, não quis nem saber o nome. Sentei na pia e eu não sei de onde ele sacou uma camisinha. Nem acabamos, estavam batendo na porta. Levantei a calcinha, abri a porta e saí. Não vi mais a cara dele. Depois disso, a única visão que eu tive foi do meu próprio pé. Eu olhava para ele e vomitava. E não parava nunca mais de vomitar. Conseguiram me levar até o ateliê de uns amigos e me largaram lá. Acho que eu ouvi o Ciccio me dizendo:
– Anne, eu tô indo embora.
E depois falaram da bota. Então acordei num sofá, com a cabeça chegando na lua e o estômago saindo pela boca. O ateliê estava frio pra caralho e alguém dormia num amontoado de cobertas. Não consegui saber quem era, estava com a cabeça debaixo de tudo. Bebi água e deitei, bem infeliz por estar tão longe de casa. Tão longe de mim mesma. Tão perto do fim. Peguei umas revistas velhas para ver, Vogues de 1970. Tudo girava. Meu estômago completamente fodido. Tinha um resto de pão seco na mesa e enfiei dois pedacinhos na boca. Enjôos e mais enjôos. Enjôos múltiplos. Tentei vomitar de novo, não rolou. Calcei a bota e desejei ir embora, também não rolou. Dormi de novo e acordei do mesmo jeito. Três horas da tarde. Tempo feio, carros passando na rua. Pessoas vivendo e eu ali morrendo. Levantei e fui olhar a minha cara num espelho – na verdade, pedaços de espelho colados na parede. Eu estava medonha.
Uma mulher, de seios de fora, pintada numa tela, não parava de me olhar. E uma coisa estava me incomodando profundamente: a escultura de um escravo amordaçado em cima da mesa. Não quis olhar muito para ele, achei triste. Avistei no chão dois pares de tênis, um Adidas e um outro qualquer. Agora via perfeitamente dois corpos sob as cobertas. Arrisquei um palpite – talvez fosse o Marcus e o namorado dele:
– Marcus... Marcus...
Talvez não.
– André, oi, quem está aí?
Uma cabeça apareceu, era o Marcus. Depois a outra, o namorado. Falei que ia embora e pedi desculpas pelo incômodo. Agradeci a hospedagem e saí.
Peguei o elevador e desci. Estava no primeiro andar. Fantástico. Saí que não olhei para a cara de ninguém. Eu com aquela roupa e aquela cara no meio da rua. Queria um saco de pão para pôr na cabeça. Andei até o metrô e percebi que não ia chegar a lugar nenhum se não comesse alguma coisa. Entrei num restaurante por quilo, dinheiro contado, e comi querendo vomitar tudo. Antes disso, ainda na rua, um japonês louco veio falar comigo.
– Oi.
Joguei merda na cruz.
Não é comigo, continuei andando e olhando os livros nas bancas da calçada. Alguns minutos depois...
– Oi, será que eu posso falar com você?
– Sobre?
– É que eu te vi e...
– Estou com pressa.
Eu andava feito uma lesma.
– É que eu te achei tão bonita...
– Tá achando que eu sou puta?
O japonês abriu os olhos.
– Não, eu só queria conversar com você, mas... quer namorar comigo?
Uma piada amarela.
– Eu já tenho namorado.
– Ah, então tá bom, tchau.
Deu meia-volta e saiu andando. Os japoneses são todos loucos, amarelos e esquisitos. Deve ser excesso de peixe no cérebro.
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01:59 pm - Take 27 Sábado. Claro que ele não me ligou. Até pensei na possibilidade da namorada estar lá e tal, mas depois do banho esqueci e liguei na casa dele. Eu nunca ligo lá.
– Alô.
Acho que era a mãe dele, a voz era a mesma da secretária eletrônica.
– Alô, por favor o Rey.
– Quem é?
– É a Anne.
– Reeeeeeey, telefone! Cadê o telefone que não está aqui? É a Anne.
– Alô.
Só pelo "alô" eu saquei tudo.
– Alô, Rey, é a Anne tudo bom? – Tudo.
Ótimo.
– E aí, tá melhor?
– Mais ou menos, eu tô aqui vendo filme com a Carla.
Eu não ouvi nada.
– E aí, vai fazer alguma coisa hoje?
– A Carla tá aqui, a gente tá vendo filme.
Não foi o que eu perguntei, de modo que continuei ignorando. Eu já tinha ouvido que ele estava com a Carla. Carla é a namorada, e ela estava lá, e eu não estava. Estava em casa, com os cabelos molhados, de roupão, perguntando se ele ia fazer alguma coisa, não perguntei de porra de Carla nenhuma. Filho de uma puta!
– Ah, você vai ficar por aí...
Continuei falando tudo no singular.
– É... você vai para a Funhouse?
– Acho que vou, se bem que eu nem sei direito onde fica, você sabe?
Silêncio.
– Acho que fica na Cardeal.
Fica na Bela Cintra.
– Então, tá, um beijinho.
– Tchau.
Olhei no espelho e dei risada da minha própria cara. Ou eu dava risada ou dava um tiro no espelho.
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01:53 pm - Take 26 Lalalalalá... Que porra de dia é hoje? Bom, não importa. Vou tentar viver, dentro do possível, até a música acabar. Sinto que já acabou. Tudo bem, não custa nada fingir mais um pouco. Assobiar e olhar de canto de olho para um coração que está despedaçando mais uma vez. É só não encará-lo. Não olhar no olho. Senão vou ter vontade de chorar. De berrar e me atirar de pontes. Por isso não vou olhar. Quando a música acabar e o sol voltar, vou ali, comprar chocolates. Vou. Eu e o vento. Porque o vento parece ser a única coisa honesta por aqui.
Hoje eu ia ao cinema com ele. Ficou de me ligar. Na terça me falou sobre essa Mostra grátis – algo sobre uma banda alemã que toca com molas e furadeiras. Concordei em ir. Não quero ver porra de mola nenhuma, mas gostaria de encontrá-lo, tomar umas, quem sabe... Daí me contou que foi num show no sábado. Havia tomado dez comprimidos de qualquer coisa que vendem em farmácias. Isso me aliviou um pouco. Dez. Deve ter ficado babando por lá. Disse que não articulava mais palavras e que tinha que fugir das pessoas. Melhor impossível. Aí perdeu a carona e deitou no sofá, tentando achar alguém com cara de "ZL" (Zona Leste). Achou um e foi embora atulhado no meio dos instrumentos.
Depois, largado em algum lugar perto de casa, chegou e não conseguiu dormir. O dia amanhecendo, os passarinhos cantando na janela. A vida passando e as pessoas tomando café. As drogas, muitas vezes, têm um lado cruel – você fica à margem de tudo e não chega a lugar algum, de verdade, é tudo mentira. Cruel como a vida que passa e não te espera. Se você está caído no bueiro ou atrás de uma mesa de escritório, ela passa do mesmo jeito. Às vezes parece mais lenta, outras mais rápida. E quando você se dá conta, já acabou.
Liguei lá na casa dele não uma, mas duas vezes, e falei com a secretária eletrônica. Não vou chorar. Não vou nada. Vou uivar. Por dentro. Quero esquecê-lo para sempre agora. Eu odeio secretária eletrônica. Eu odeio essa solidão moderna de ser atendida por uma voz que talvez já tenha morrido e que jaz, agora, dentro de uma máquina. Pro diabo a modernidade!
Também liguei para o meu amigo Ciccio. "Telefone temporariamente fora de serviço." O mundo parou e não me avisaram nada. O mundo parou e eu continuei ali, largada bem no meio dele. Chamem o resgate. Me deixem na porta de alguma igreja. Eu e todo o meu azar.
Quase engulo o telefone com antena e tudo. Duas gravações no mesmo dia é demais.
Me neguei a aparecer na editora. De qualquer forma, eu nem tinha dinheiro para ir. Também não fiz o trabalho que trouxe pra casa. Decretei folga hoje. Dia internacional da injúria. O mundo parou. Parou.
Já estava quase desistindo de tudo quando olhei paras as correspondências em cima da mesa. Para Anne. Anne sou eu. Fatura de banco, passo!, e uma tal de Daniela. Fiquei tentando reconhecer nome e letra. Minha memória quase falha. Mas de repente eu me lembrei. Daniela, claro, minha melhor amiga de colégio. Levemente estrábica, mas nem dava para perceber. Meio índia, mas ela gostava de ressaltar sua porção italiana. Estudamos juntas da sexta série até o último ano colegial, depois perdemos contato. Lembro que estávamos sempre rindo. E que as outras pessoas, alunos de colégio particular, se incomodavam com isso. Provavelmente todos achavam que éramos retardadas, mas a verdade é que estávamos rindo deles.
Certa vez nós estávamos em cima do muro da casa dela e enchemos a cabeça de um transeunte de espumas de carnaval. Bem nessa hora o irmão dela chega, e o cara lá, no portão, puto da vida e com a cabeça cheia de espuma. O sujeito começou a reclamar. O irmão dela, um tipo disforme, meio paquidérmico, entrou chamando por ela, que se escondeu dentro do guarda-roupa. Eu fiquei sem saber muito bem o que fazer e me sentei na cama, aguardando a bronca, que chegou gorda e ameaçadora, junto com o irmão gordo dela. Eu nunca gostei de gordos.
Nós sempre tivemos esse espírito suíno dentro de nós. Mas no fim do colegial não estávamos mais tão juntas. Ela já havia entrado para a Igreja e eu para o Rock’n’roll, que não deixa, portanto, de ser uma espécie de religião – e nem é do demônio.
Um dia Daniela me convidou para participar de uma reunião de jovens, disse que havia uma banda e tudo o mais. As pessoas levantavam as mãos para o céu e se sacudiam e cantavam músicas para Jesus de olhos fechados. Continuei de olhos abertos, observando tudo aquilo. Fiquei com vergonha de estar ali, mas talvez eu só precisasse de um pouco de álcool. Afinal, talvez não fosse tão mau assim cantar umas musiquinhas de louvor ao senhor. Jesus gostava de vinho, não?
Nunca mais voltei nessas reuniões. Agora, muitos anos depois, ela está novamente me convidando para participar de uma. Disse que "ora muito por mim e que pensa muito em mim" – deixa claro que está namorando. Quase chorei. Se ela soubesse o quão longe eu estou de deus e de todo esse lance de religião... Se eu contasse para ela a minha vida nos últimos anos... Acho que ela ia ter que orar muito ainda e, mesmo assim, eu encontraria as portas do céu fechadas quando chegasse lá. Há caminhos e caminhos, minha cara Daniela. E a Igreja me parece, de longe, um lugar para desesperados.
Bem, eu sei que todo mundo precisa se apegar a alguma coisa para sobreviver, porque a existência é demasiado aterrorizante se acharmos que somos os únicos responsáveis por tudo. Mas, porra, nem eu oro muito por mim. Eu simplesmente não oro nem rezo nem peço perdão. Acredito em deus quando me convém. Muitas vezes nem isso.
Não vou mentir para ela. Simplesmente vou escrever, agradecer o convite, falar que fiquei emocionada e tudo, mas que fico com um cara que tem namorada e trepo de três em escadas de bares e em camas de motéis vagabundos. Quando ajoelho, não é exatamente para rezar. Direi que não aguardo respostas, mas, se ela quiser continuar orando, agradeço. De coração. Creio que só a minha mãe e a minha avó ainda façam isso por mim.
Ela disse que sente saudades dos nossos tempos de colégio. Eu não posso dizer o mesmo. Há algo errado com o ensino neste país. Sempre achei a escola uma bosta. Professores e alunos igualmente carentes de qualquer opinião que me convencesse. Matérias chatas. Leituras desinteressantes. Colei em muitas matérias para passar. Também pichei carteiras, coloquei tachinhas em cadeiras de amigos e nunca fui popular. Exceto pelas risadas, estar na escola nunca foi divertido. Era um saco.
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Seis horas da tarde. Eu estava me preparando para ir comprar chocolate e o celular tocou. E o mundo voltou a girar. O sol, que já estava indo embora, saiu de trás das colinas e sorriu no céu.
– Anne, e aí, tá afim de ir lá ver o filme?
– Tô, eu te liguei aí, mas ninguém atendeu...
Nem falei sobre o mundo ter parado.
– Onde você tá?
– Então, eu tô em casa. Onde vai ser mesmo?
– No Itaú Cultural.
– Ah, na Brigadeiro, né?
– É, eu te espero lá.
– Tá bom.
– Então até mais.
– Tchau.
Deixei para lá o chocolate e até mudei de humor. Passei um rímel no olho, calcei um tênis mesmo, enfiei um chiclete de menta na boca, acendi um cigarro e saí. Eu e os meus oito reais. Peguei o primeiro meio de locomoção que passou e cheguei lá na Brigadeiro pouco antes das sete e meia – o filme começava às oito.
A lotação estava tomada de estudantes tagarelas, cabelos molhados e cara de fome. Elas ficavam gritando besteiras para os outros estudantes de cabelos molhados e cadernos na mão que passavam nos ônibus vizinhos. Provavelmente trabalharam o dia todo em lojas de roupas ou supermercados, e agora tentavam completar o ensino médio. Não fiquei com ódio nem nada, entendi aquela situação. Chegando em casa, tarde da noite, nada mais teriam a não ser o silêncio escravocrata do operário e um resto de energia para trabalhar no dia seguinte. O rádio tocava pagode e todas elas sabiam cantar. Eu tentava, ainda e sem sucesso, ler o meu Gatsby. Mas aquela carroça sacudia e caía em todos os buracos possíveis da cidade – ou talvez só existam buracos mesmo em São Paulo. Um pedaço do livro caiu numa curva mais brusca, provavelmente de desgosto.
Imagem bonita de se ver. Daria um belo filme de Sessão da Tarde. Anne chegando, esbaforida, com seu cigarro na boca, e Rey sentado no vento. "Oi". "Oi". Abraço e beijo – no rosto. É muito mais cômodo a gente ficar depois de tomar umas. Talvez ele se esqueça que não deveria estar ali comigo. Não sei se é o que podemos chamar de “amor alcoólico”. Freud ia gostar dessa.
Já fui falando que ele estava azedo. Na verdade, estava chateado. Chateado com a vida.
Ele me deu o meu ingresso e ficamos sentados naquela sala moderninha cheia de coisinhas interativas para se distrair. Lembrei imediatamente da Kate. Não faz muito tempo, estivemos deitadas naqueles chiqueirinhos ouvindo músicas e cantando argentinos. Acabou, né? Parece. Ela acha que eu a estou evitando. Eu não sei o que eu “estou”. Já chorei o suficiente. E ela continua ficando com o ruivo – nunca fui muito com as fuças dele, agora entendo porquê. Eu detesto gente que não tira o sorriso da cara, você nunca sabe se estão rindo ou sorrindo. Ele era um desses tipos.
E, então, num dia parece que você tem tudo – inclusive dois amores –, e no outro você se descobre sem nada.
Alguns conhecidos estavam por lá. Aquele cara que parece o Lou Reed, só que é chato pra caralho, e com o qual eu fiquei uma vez. Acenei automaticamente. Ele praticamente me ignorou. Se eu tivesse pensado, teria feito o mesmo. Mas foi um impulso.
Quando nós ficamos, ele estava meio que morando com o Renato, um cara pelo qual eu fui loucamente apaixonada durante uma semana inteira. Imagina, estávamos lá deitados e ele ficava esfregando aquele pé feio nas pernas do Renato e miando feito gato no cio. Aquilo me embrulhou o estômago.
Encontrei outras pessoas também, mas não valem um comentário. Só sei que se você tenta moldar a sua felicidade demais, ela simplesmente não acontece. Por isso eu estou aqui, em plena sexta-feira à noite, tentando lhes mostrar que embora eu reconheça os meus erros, não posso evitá-los.
Pegamos duas cadeiras no meio da sala de cinema e ficamos sentados sem falar nada. Ele me deu um chiclete – eu já tinha jogado o meu fora – e ficou folheando uma revista com a programação. O filme durou pouco menos de uma hora. Procurei ficar distante, ele não é o meu namorado. Cada dia que passa, isso fica mais e mais claro. Nas partes engraçadas, todos riam. Nas outras, nós ríamos.
Aqueles alemães eram insanos. Alemães revolucionários incendiários tocando uma música que nada mais era do que ruídos com algum sentido. Havia todo um lance de contra-cultura envolvido, juntamente com marteladas, machadadas, maçaricos, furadeiras e bateria feita de placas de aço... A voz do vocalista era a de um gato sendo estrangulado. Muito interessante, do ponto de vista do caos. Eu adoro o caos, não deixa de ser uma espécie de política. Quando os caras do governo sacam isso, eles ficam loucos tentando cercar esses grupos de todas as formas, só para manter as coisas sob controle. Tudo o que vem de baixo, especialmente da massa de proletariados, vira automaticamente algo revolucionário. La revolución. Uma música fria, num país onde língua e pessoas são igualmente frias. Acho que não poderia ser diferente. Uma música que nasceu de protestos de rua, quando as pessoas ficavam batendo em tudo o que encontravam, com o que quer que tivessem em mãos, para chamar a atenção para o que tinham a dizer. Curioso.
Saímos do cinema e fomos ao mercado comprar cerveja e chocolate. Minha vontade de comer chocolate ressurgiu do nada. O nada é como um rombo que vai comendo a sua alma, de modo que ou é um chocolate ou eu não me responsabilizo pelos meus atos.
Não aceitaram o meu ticket alimentação para comprar cerveja e o Rey pagou com o dinheiro dele. Fomos bebendo pela rua e paramos numa locadora para entregar uns cds para um cara que não estava; tinha passado mal, tido dor de barriga, qualquer coisa assim. Então fomos andando até o Paraíso, que está mais para inferno, e entramos num boteco. Um boteco fedorento, cheio de seres de outro planeta e cracas no teto. Perguntei ao balconista se o copo estava limpo, porque veio pingando; ele fez que sim com a cabeça. Hum.
Uma hora peguei ele me olhando de rabo de olho, o balconista. Acho que queria ver se eu era puta. Já me acostumei com isso. Bebemos duas cervejas e saímos. Rey arrotou na cara de um cara que ficou me olhando como se eu fosse serventia da casa. Depois parou para urinar num poste e fomos para a minha casa. Eu quis que ele fosse.
Deitamos de roupa. Não ficamos muito tempo com elas, no entanto. Eu estava afim de trepar com ele e trepei. Não gozei, mas gozei. Posso gozar agora, se eu quiser. Estávamos apenas ouvindo música. Falei para ele deitar, estava com cara de cansado, desânimo, sei lá. Eu entendo, só que costumo esquecer das coisas ruins quando estou com ele.
Me deu um beijo. Desci a mão e encontrei o seu pau, meio aborrecido também. Tratei de animá-lo. Ele tirou a minha calça e deslizou a mão por trás. Eu gosto das mãos dele.
Primeiro eu estava de bruços. Depois eu me virei. Acho que a melhor sensação do mundo é ter dentro de você alguém que você realmente gosta. Sabe, gosta de verdade, mesmo que você goste pelos dois. E a outra melhor sensação é sentir quando o cara vai gozar. A respiração aumentando, os movimentos ficando mais rápidos, de repente esquenta e ele tira o pau de dentro de mim e goza. Um jato quente que foi parar direto no colchão. Depois ficou gelado e eu me deitei em cima daquilo que poderia vir a ser uma vida, até mais de uma. Por mim, gozaria dentro. Mas não pode.
Acho que rolamos na cama até de manhã. Ando com insônia e ele com gripe.
Acordou e foi embora, ainda triste. Disse que tinha ensaio com uma de suas bandas. Há certos tipos de coisa que eu entendo. Ficar chateado é uma que eu entendo. Raramente podemos mudar o estado de espírito de uma pessoa infeliz. Já disse que fico sempre mais feliz quando estou com ele. Mas depois ele sempre vai embora. Ou eu vou. Eu deveria ir de vez, só que eu não consigo.
Foi a primeira vez que eu disse "me liga". Não sei por que eu fiz isso.
Disse "valeu" e subiu no ônibus. Parecia a primeira vez que esteve em casa. Eu não sei o que "valeu", nesse caso, significa. Acho que é: "obrigado pela atenção, a foda, e tudo o mais, mas agora eu tenho que ir, e não se esqueça que eu tenho namorada, então, valeu". Valeu, uma merda! Não estou lhe prestando favores.
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November 16th, 2003
12:26 am - Take 25 No sábado ela me deixou um recado na caixa postal. "Olá, Anne, tudo bom?, aqui é a Kate, me liga mais tarde, vamos sair..." – fazendo voz de feliz pra caralho, como sempre. Puro teatro. Não. Não vamos porra nenhuma! Eu nem queria ver a cara de ninguém, muito menos a dela.
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12:19 am - Take 24 Estávamos no ponto de ônibus, em frente a casa dele, e o Rey falou:
– Olha a orelha daquele moleque.
– Se bater um vento ele levanta vôo.
Hahahahahahahahahahaha.
Não somos debilóides. Bom, às vezes. Aí o meu ônibus chegou, aquele simpático "Praça da Sé", e eu fui para a editora com um beijo no canto da boca. Alguma coisa mudou. Sou estúpida o suficiente para perceber que sim e fingir que não. Volta a fita, que vai enrolar e estragar na melhor parte. Não, não vou te amar para sempre.
Quarta-feira na editora. O celular toca no meio do bolo, era o aniversário de alguém. Atendo e engasgo quando percebo que é ele. "Não, hoje não dá. Amanhã eu te ligo. Um beijo." "Outro." Não dava mesmo. Como sempre, eu achei que ele não ia mais me ligar depois das novidades da viagem de Curitiba, mas por que não ligaria?
Quinta-feira
– Alô.
– Alô, por favor o Rey.
Lógico que eu sabia que era ele.
– É ele.
– Rey, é a Anne, tudo bom?
– Tudo.
– Então, você vai ficar por aí hoje?
– Vou ter que ficar, o Ivan vem ensaiar aqui às oito.
– Tá, então eu passo aí.
– Legal, você pega o...
Me explicou como fazia e eu cheguei lá debaixo de chuva. Parei num bar-restaurante para perguntar onde era o número 70. Bom, o bar era 76 e o garçom me disse que devia ser mais para cima. Errou, era ao lado – lá na Moóca, depois do 70 vem o 76. Reconheci pelas duas motos e os dois carros na garagem. Toquei o interfone, após chegar a um acordo com o cachorro, e ele saiu lá em cima na janela.
– Pois não?
– Oi, tem pão?
– Peraí.
Fomos até o mercado buscar umas cervejas. Avisei que o meu dinheiro, cinco reais, tinha ficado na casa dele. Tudo bem. Ele perguntou se a caixa do Pão de Açúcar tinha cortado a gravata. Ela concordou que era ridícula e disse que não. Na porta do supermercado, um cachorrinho Salsicha dava suas latidinhas com aquelas patinhas curtas. Notamos que dava para pôr no meio do pão. A senhora dona dele sorriu azeda. Fomos bebendo e conversando. A banda que ia ensaiar – ele tem um estúdio em casa – chegou. Ois. A garota ficou muda quando viu que eu não era a namorada. Claro que não, darling, ela mora em Santos. Acho que ele não quis ficar lá no estúdio, sendo julgado e condenado, e fomos para o bar ao lado. O garçom ainda estava lá e me deu um sorrisinho. O lugar estava às moscas, então acho que os garçons sentam e bebem quando não há movimento. Ou aquele não era o garçom; de qualquer forma, se parecia com um. Uma garrafa de cerveja para começar – ou continuar, sei lá. Sentamos lá fora. Estava ventando e meio chuviscando. Depois parou – ou ficamos bêbados demais para notar vento e chuva. A banda terminou o ensaio e saiu correndo, o que eu achei muito bom. As pessoas devem ter esse bom-senso de sacar quando estão sendo convidadas a sentar e beber somente por educação. Na verdade, eu não falaria nem tchau. Como encerraram o ensaio meia-hora antes do combinado, ficaram esperando o troco, que não tiveram. Cinco reais a mais nos renderam duas cervejas a mais. Obrigado, voltem sempre.
Aí, falei quilos de merda. Certamente fiz confissões patéticas. Um raio deveria ter caído sobre a minha cabeça antes disso, mas deus não vai muito com a minha cara. As últimas coisas de que me lembro são – não exatamente nesta ordem: ele falando que desde o começo eu sabia que ele tinha namorada, ao que eu concordei; eu com a perna no colo dele, fungando em seu pescoço; ele pedindo a "caidera" e eu conversando com o garçom – ou seja lá o que fosse –, que ainda bebia, e pedindo um cigarro. Ele pagou a conta e eu já estava mais do que tonta e faminta. Comemos o macarrão com brócolis do irmão dele – tenho certeza de que comi com os modos de um suíno – e fomos para o seu quarto. Tentei não fazer barulho e não parecer bêbada. Ainda tinha um resto de consciência e dignidade, eu acho. Ele colocou um cd do Dylan e eu comecei um boquete. Ou foi ele que colocou o pau na minha boca, o que dá na mesma. Deve ter se esquecido da nossa conversa ainda na mesa do bar sobre ter uma namorada e ficar trepando com outras. Ele disse que havia mudado. "Agora só vou bater punheta." Belas palavras. Palavras e cu de bêbado têm o mesmo valor. Ele gozou e eu capotei do lado. Eu adoro quando ele goza.
Não sei que horas eram, mas acordei morta de sede e com vontade de urinar. Ele também tinha acordado e quando voltei ficamos conversando. Horas, dias, anos... Fomos longe em nossas memórias. Ele disse que tava sonhando com umas berebas crescendo na cabeça dele. Eu não tinha sonhado nada até ali. Falamos de Wilde, Dorian Gray, e acho que dormimos de novo. Acordamos com o telefone – dessa vez não era a namorada, como das outra vezes – e ele veio com aquelas mãos. Eu queria falar foda-se para a namorada, mas acho que não consigo e ele também não. Estou farejando o fim – vem como uma brisa fria no meio da madrugada.
Sim, descobri que somos do mesmo signo, talvez por isso sejamos tão parecidos. Ele é do dia 1º de julho e eu do dia 19. Coincidentemente, em nossos aniversários deste ano estivemos juntos. Não acredito muito nessas coisas, de qualquer forma, assim como não nego que temos mesmo muito em comum.
Ele buscou uma camisinha – depois de toda a nossa conversa – e acabou que não usamos. Porque estamos sendo inconseqüentes e loucos. Porque somos jovens e imbecis. Porque morreremos, os dois, de câncer.
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November 15th, 2003
11:56 pm - Take 23 Curitiba. Seis horas do meu último amor. Ou seja lá o que for. Eu não sei de mais nada. Não quero saber. É melhor quando você não sabe. Você se fode menos. Rey foi me levar na rodoviária porque tinha dormido em casa. Sim, eu sei. O que vocês esperavam? Ele sempre será bem-vindo na minha casa. Até o momento em que foder com tudo. Porque as pessoas – sem exceção – sempre fodem com absolutamente tudo. Acho a humanidade fascinante! Ele me ligou e acabamos naquele bar – o "Suínos bar" –, naquela Galeria, no centrão de São Paulo. Temos uma espécie de relação íntima com o centro de São Paulo. Vocês sabem, a decadência total. Os bares. As galerias. O rock. Os sebos. A podridão completa. O êxtase. Poucas almas entendem e sentem o mesmo, imagino eu.
Não bebemos tanto – se comparado às outras vezes. Daí eu falei que o meu violão estava desafinado. E então ele foi para a minha casa – afinar o meu violão. O quê? Não, não... Eu não sei afinar nada. Minha vida é uma canção eternamente desafinada, tocada em três acordes, e possui uma letra extremamente confusa. Para completar, o disco está riscado. Don’t try.
Resolvemos não trepar. Sei lá. Só dormimos abraçados e acordamos mortos de susto com o Elvis berrando no aparelho de som. O disco estava no "repeat" e a gente já tinha dormido quando a música voltou a explodir na caixa. No meio daquele silêncio fúnebre da madrugada, Elvis era assustador.
Altas madrugadas... Dali a algumas horas eu iria para Curitiba e não tinha arrumado nada ainda. O que me importava? Vocês entendem que ele estava lá? Espero que sim. Porque quando ele está lá, nada mais me importa.
Marquei com a Kate – sim, quem mais? – às 11:00 horas, em frente ao guichê para Curitiba. Cheguei quase meio-dia e com ele. Obviamente ela não ficou feliz, mas também não comentou. Combinamos uma piada, que ele começou:
– E aí, Kate, vamos?
Já falei aqui que nós temos o mesmo tipo de humor, eu e ele? Nós temos.
– Você vai também?
– Vou.
Cara de desgosto.
– Estou brincando.
–Ah.
Piadas perdem a graça depois de algum tempo. No entanto, acho que a Kate já se acostumou com a idéia de que vamos nos ver infinitas vezes sem que ela esteja presente. Aliás, foi o que sempre aconteceu mesmo.
Nos despedimos e ele foi embora. Disse que não ia ficar para juntar os lencinhos. O silêncio dela não foi um bom sinal.
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O ônibus partiu meio-dia e seis. Uma única parada até lá. Ela enfiou o fone do discman no ouvido e não me ofereceu – também, quem quer ouvir Pavement? Peguei "O Grande Gatsby" para ler e não saí da primeira página. Fiquei pensando nas razões de não ter trepado com ele. Cheguei a uma conclusão: não o amo – se bem que isso não tem nada a ver. Mas até o final desta história, jurarei que sim. Não me dêem ouvidos.
Reclamei da cara de cu dela, tirei o tênis e mudei de banco. Às vezes estar só e estar acompanhado de certos tipos de gente dá na mesma. Eu estava só, portanto. Sol e vento batendo. Deitei os olhos na estrada e deixei os pensamentos vagando. As árvores e o verde ao redor indicavam que não estávamos mais na capital do concreto. Fechei os olhos e adormeci. Acordei com ela me cutucando:
– Anne, parada!
Malditos alemães!
Comemos e tiramos umas fotos. Ela comprou dois pirulitos gigantes e sorriu. Confesso que não entendi – mas sei que adora pirulitos... Voltei a sentar com ela. Colocou as pernas no meu colo. Mais um pouco e estávamos desembarcando na rodoviária de Curitiba. Não senti nenhuma emoção. Uma senhora nos desejou boa sorte.
Fomos nos trocar no banheiro e alugar um armário para as malas. Completamente on the road. Estávamos ali e era tudo o que sabíamos. Nossa primeira felicidade foi notar que tudo lá é muito barato. ("Inclusive as emoções?" – ele me perguntaria depois, via e-mail. É, inclusive.) Ficamos realmente felizes com isso. Fiquei contente com os meus cinqüenta reais e nem mais um centavo no bolso. Depois de prontas, ela ligou para um amigo dela – além de querer sair um pouco de São Paulo também fomos com a intenção de assistir um festivalzinho de rock – a fim de pedir o endereço do bar que eu esqueci em casa. Ele disse que nos apanhava lá em meia hora. Parece que ela gostou disso, deu aquela risadona. Hohoho...
Saímos para fumar um baseado. As pessoas pareciam assustadas. O ar lá é muito limpo e tudo lá é muito claro. Na nossa cara devia estar berrante: NÃO SOMOS DAQUI. NÃO SOMOS GAROTINHAS PROVINCIANAS. Voltamos e sentamos na rodoviária. Botas e maquiagem. Recebemos o cartão de um advogado com uma mensagem proferida por um mongolóide:
– O cara ali mandou perguntar de que Igreja vocês são.
Os porcos também têm humor.
– Igreja?
– Ai, que idiota!
– Igreja Fuck You All.
– O quê?
– Vai à merda, seu imbecil!
– Vou falar pra ele.
Uma hora depois tentávamos rir. Águas estranhas caiam do teto na cabeça dela. Mudou de lugar. Um cidadão perguntou se podia se sentar ali. Consenti, afinal, os bancos das rodoviárias são públicos. Depois, o mesmo cidadão me avisou para tomar cuidado com as minhas coisas – jaqueta e máquina jogadas ao lado. Olhei para trás e vi um mendigo. Pensei que não houvesse mendigos em Curitiba, que eles enfiassem debaixo do tapete ou afogassem no rio. As pessoas lá são perfeitas demais. Parece que ninguém tem defeitos. Ninguém caga nem peida. E lá estávamos nós, contrastando com aquela harmonia jocosa. Admito que aquela limpeza toda me irritou, e aquela demora também. Não queríamos fazer cara de quem estava ali azedando há uma hora. Sugeri umas risadas à toa. Tipo: "adoramos sentar aqui, ser chamadas de puta, e esperar um cara que deveria estar aqui uma hora atrás chegar". Ela me contou uma piada pela metade e depois outra inteira. Em uma das piadas ela emitava um fanho. Fiquei olhando aquilo e me constrangendo por ela. É o tipo de coisa que eu teria vergonha de fazer. Não pelo fanho, é que a cara fica horrorosa. E repente parou um carro e duas cabeças ficaram nos olhando. Só enxerguei dois cabelos. Cabelos para frente, em formato de tigela.
– São eles. – ela disse.
– Oi.
– Oi.
– Oi.
– Oi.
– Oi.
– Oi.
– Oi.
– Oi.
Primeira impressão: QUEM É ESTE NO VOLANTE? Ela disse que ficou com ele uma vez. Então nos deixaram no bar e foram buscar a namorada. Uma namorada! Há sempre uma maldita namorada! O baterista da banda, amigo dela e primo do cara do volante, estava na porta e já foi nos cumprimentando com uma mão na bunda. Gostei dele de cara. Ótimo começo. Segunda impressão: dois e cinqüenta a dose de vodca. Preciso comentar o quanto nós bebemos? Vocês devem saber quanto custa uma dose de vodca vagabunda em São Paulo. Terceira impressão: as pessoas que saem de balada em Curitiba são muito mais novas do que em São Paulo – talvez na faixa dos 20 – e ao que parece assistiram muito a MTV. Tudo o que sei é que aquelas crianças não foram muito com as nossas fuças. Primeiro: porque não somos crianças. Segundo: éramos forasteiras. Terceiro: pegamos o que era delas. Rapaz, aquilo não prestou! Depois de umas doses já estávamos pulando e dançando e trocando beijos calorosos em frente ao palco. Não me lembro da cara das pessoas, mas posso imaginar. Ela sacou o pirulitão enorme e colorido e psicodélico da bolsa e começou a lamber aquilo. Era obsceno, lógico. Quem não lambeu aquele pirulito? Demos beijos de três, quatro, cinco... Crianças, hora de ir pra cama. Quarta impressão: as baladas lá rolam muito cedo, a primeira banda tocou às oito. Então acho que uma e meia já estávamos em outro bar, trepando dentro do banheiro feminino. Um dos caras, de São Paulo, era o Sr. que capotou o fusca, amigo do Rey. Maldito álcool, maldita luxúria! A gente acha que recebe pomba-gira. Não sei, é apenas um palpite. Eu não planejava trepar em Curitiba. Quer dizer, mais ou menos. Quando já estávamos vesgas e tortas e eu já tinha vomitado e voltado a beber, resolvemos que era hora de ir para algum lugar. Pegamos um táxi e ficamos num motel no melhor estilo pulgueiro. Só eu e ela. Os lençóis eram rasgados, a tevê não tinha controle remoto e eu já não enxergava mais nada mesmo... Boa noite, Cinderela.
Acordei de manhã com a cabeça ardendo. Mas como o meu sono era muito maior, voltei a dormir. Depois Hitler acordou e resolveu que eu não podia mais dormir. Tomamos um banho naquele banheiro xexelento e saímos para comer alguma coisa além de pirulitos e pirulitos e pessoas. Um e cinqüenta um lanche! Aquilo era surreal pra gente. Pegamos outro táxi – tá, tá bom, admito que é bom ser rico – e fomos bater na casa de uns conhecidos dela. Ninguém atendeu. Passeamos no shopping, ela fez umas compras e voltamos para a rodoviária. Lá tomamos outro banho e nos trocamos. Depois, táxi de novo – TRÊS VIVAS PARA A RIQUEZA!!! – e ficamos nas proximidades do bar da noite anterior.
Show must go on
Começamos a ouvir um blues vindo de uma janelinha que dava pra rua. Pensamos em ir até lá, por isso eu meti a cara na janela. Vi uns cabelos compridos e deixamos pra lá. Achamos melhor ir comer do que ir ter com pessoas de cabelos compridos. Sentamos numa padaria na esquina e continuamos a ouvir a música. Aí tocaram "Day Tripper". Quisemos ir lá de novo. Então chegou uma garota e nos convidou. E foram as pessoas mais legais que conhecemos por lá, uns tipos bem anos 70. Fiquei emocionada. Pessoas de verdade! É muito fácil reconhecer pessoas de verdade: elas não precisam vestir fantasias; elas só estão lá, enfiadas num porão, com fotos de Hendrix e Led Zeppelin e Bukowski e negrões do blues na parede, de meias e chinelas, sem camisa, tocando em seus instrumentos precários e sendo elas mesmas, sem fingir nada. Nadinha. Sem nem mostrar muita emoção pelo fato de sermos de São Paulo. Bela merda, São Paulo! Dois caras muito legais. E a banda deles chamava Barflies, alguma pergunta? Eles entenderam a minha tatuagem "love is my sin", alguma pergunta? Não sei se me apaixonei por um deles. Acho que sim. Aquelas camas com colchões que não faziam diferença alguma, aquelas vidinhas simples e sinceras, e um deles trabalhava num bar GLS lá, chamado Cat's... Ficamos de ir para lá depois do show. E fomos.
Qual é o nome daqueles carrões antigos enormes? Galaxy? Pois é, estávamos na esquina e um desses passou e nos chamaram. Era o baterista tarado e o seu outro primo lindo, mas ele tinha sapinho. Chegamos no bar e logo entramos. Sem muito papo. Eu já estava meio azeda com aquelas pessoas. Antes da última banda, saímos andando, sem nos despedir de ninguém. A merda toda foi que chegamos no Cat's e não conseguimos entrar. A Kate estava sem os documentos.
– De jeito nenhum. – disse um tipo Ru Paul.
Depois continuou a chutar o rabo das pessoas.
– Geeente, aqui dessa fila eu não conheço ninguém, todo mundo fora... Você não entra, você também não...
Aquilo estava engraçadíssimo!
A outra drag foi bem mais simpática, eu estava com a minha máquina de fotografia e ela achou que éramos da imprensa. De São Paulo. Mesmo assim, não entramos. Foda-se a imprensa! Foda-se São Paulo! Pegamos um táxi e fomos obrigadas a voltar para aquele segundo bar da noite anterior, o tal do Camorra, e encarar aquelas pessoas. Meu estômago já estava doendo. Eu preferia ter ido dormir. Perdi a minha boina num táxi e não queria mais saber de ié ié ié. Nem de fodas no banheiro com as pessoas do ié ié ié. O taxista tinha cara de psicopata e estava levando a gente para o outro lado da cidade. Saltamos do táxi e tivemos que voltar andando. Chegando no bar, encontrei um conhecido de São Paulo, o Vagner. Ele estava tão bêbado quanto a gente na primeira noite e também feliz com o preço de tudo. Por dois e cinqüenta, o lance era beber o máximo que nossos corpos suportassem.
– Vagner, cadê todo mundo? – uma pergunta de uma pessoa sã.
– Meu, eu não sei... eu não sei nem onde eu tô...
Fantástico.
– Você vai ficar aí?
– Eu não sei, eu já bebi tanto...
– Acho que tá rolando uma festa em outro bar e a gente vai pra lá.
– Tá, então vocês me chamam, porque eu não sei...
Quem sabia? Eu tinha tomado um E com a Kate e o baterista e seu primo lindo, mas com sapinho, que tinha acabado de chegar de São Paulo. O Vagner estava muito engraçado com aqueles óculos gigantes de vó, se sentindo o último dos rockstars, e cercado de garotinhas. A namorada dele, obviamente, ficou em São Paulo e não sabe de nada daquilo. De repente o baterista tarado aponta na esquina, suando feito um porco e com o olho arregalado, falando que já tinha dado umas quatro voltas por Curitiba inteira, a pé. O que não é muito difícil, suponho. Seguimos ele até o bar e entramos, ele sumiu. O Sr. Monocelha apareceu do nada, esperando um replay da outra noite e não teve, então foi embora. Mais álcool. Tocaram Pulp. A pista era pequena e todos olhavam pra gente. A Kate agarrou um cara e me puxou. Antes disso já tinha me derrubado no chão e eu quebrei a minha promessa falando "I love you" pra ela (em inglês, para parecer mais ameno). Ela disse que independente do que acontecesse, queria continuar sendo minha amiga para sempre. Tudo bem, claro. O que poderia acontecer? Perguntamos a idade do carinha, ele era modelo. "Dezesseis". Uau. Falamos que íamos ser presas. Ele riu. Era lindo pra cacete, o filho da puta, e mais esperto que muito cara de trinta. Olhava pra gente fascinado, enfiou a mão por baixo do meu vestido e me encostou na parede – caralho!!!; eu abri a calça dele, a Kate foi ficando puta, me puxava e eu mandei ela ir tomar no cu. Não conseguia largar aquela criança, ela estava simplesmente me estuprando. A Kate gritou que ia embora. Saí arrastando o meu filho e entramos os três no banheiro. Ela não quis, estava muito puta pra isso. Pedi desculpas e tive que largá-lo lá, para fora. Ela nem urinou e saiu andando. E lá ficou o meu lolito. Tenho o e-mail dele, mas não cogito escrever. Dezesseis! Estava louca.
Sentamos lá fora e eu ainda queria procurar a minha boina e ficar para encontrar os caras do blues. Ela já estava muito puta pra caralho e disse que ia voltar pra São Paulo. Resumindo tudo, Hitler estragou o final da minha viagem. E eu que já odiava os nazistas antes – passei a minha adolescência toda editando fanzines "punks", com licença –, agora odeio muito mais. Hitler estava com a chave do armário das malas, de modo que não tive outra alternativa a não ser segui-la – nosso último táxi. Eu acho que ela fez uma bola de neve desde aquele silêncio inescrupuloso ao me ver com o Rey na rodoviária, passando pelas amarguras de sua própria vida, juntou tudo ao fato de eu ter reclamado que ia colocar a comanda da amiga dela no meu cartão e explodiu. Simplesmente jogou em cima de mim todas as suas frustrações e errou em todas as suas malditas conclusões. Não entendeu NADA de mim. NADA. Aquilo me feriu mais do que as coisas que ela me falou, o fato de não ter sacado porra nenhuma. Daí chegamos na rodoviária, ela ligou não sei para quem enquanto eu me acabava em prantos, e compramos as passagens de volta. Então ela me pediu um cigarro – que era dela –, mas eu não lhe dei exatamente um cigarro. Peguei as duas caixas e taquei na cara dela, junto com dois pacotes de chiclete – que também eram dela – e saí andando. Sentei longe e continuei chorando. Depois saí arrastando a mala, que não tinha rodinhas, e fui ver se dava para trocar a passagem, mas ia demorar muito. Voltei pelo outro lado, comprei um sanduíche de salame com tomates secos, comi, coloquei uma calça por cima do vestido, tirei o piercing e dormi no banco.
Quando o ônibus chegou, entrei olhando para o chão. Ela me viu da janela e não pôde fazer nada. Sentei na frente e dormi. Não sonhei. De repente tudo tinha azedado. De repente aquela garota era uma completa estranha.
Já em São Paulo, ela me chamou para pedir a calça que estava na minha mala. Meus olhos estavam vermelhos e inchados. Minha vontade era de espancá-la, por ter estragado tudo. Entreguei a calça e saí. Paguei um real para usar o banheiro. As lágrimas continuavam caindo e era inacreditável. De dentro do banheiro, ouvi o barulho das sacolas quando ela entrou. Continuei trancada. Quando saí, pensei em esperá-la. Olhei por baixo da porta e enxerguei seus pés, acho que ouvi soluços também. Coloquei a mala nas costas e fui embora.
Chegando em casa, não consegui falar uma palavra. Não com a minha mãe, nem com o meu pai. Liguei para o Ciccio e contei tudo o que tinha acontecido. Saí. Minha casa parecia fria e vazia demais. Chegando na Lôca, pedi para o Ciccio ligar para ela, a gente precisava conversar. Me pediu mil desculpas, mas era tarde demais.
Eu a vi ficando com um cara. Aquele cara ridículo, o ruivo que entrou com a gente no banheiro uma vez. Senti vontade de vomitar. Uma vontade real de trazer o mundo abaixo. Virei um copo enorme de uma suposta tequila e continuei sóbria. Uma sobriedade dolorida e filha da puta. Sentei lá fora para chorar. Abaixei a cabeça e chorei nosso começo e nosso fim. Resolvi que não agüentava estar ali sem ela. Porque ela não estava mais comigo. Então peguei um táxi e fui embora. O taxista fechou a viagem por quarenta reais e foi reclamando até minha casa. Pensou que fosse "mais perto".
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11:48 pm - Take 22 Lá está Anne, sem nada melhor para fazer da vida, bebendo na mesa de um bar. É assim que desvendará a vida e contará ao mundo que não há nenhum grande segredo a ser descoberto; nenhum deus acima de nós. Nada. Anne e Ciccio, que também não tem nada melhor para fazer a não ser gastar todas as suas noites de domingo na Lôca. Daqui a pouco vão entrar. Vão. Só não sabem, com certeza, se sairão. Já viu Ciccio virar cobra lá dentro e rastejar pelo chão como se não tivesse mais ossos no corpo – tudo culpa do comprimido azul.
O tempo parece bom, conversam amenidades. Daí o namoradinho dele chega acompanhado de uma garota e se sentam. Sem pedir licença. Sempre a uma certa distância da maioria dos estranhos, Anne não abre a boca para falar com nenhum dos dois. Nada além de um "oi" seco e um olhar só para saber do que se trata. Não, não, de jeito nenhum. Não se acha melhor do que ninguém, apenas não vai se emocionando assim com quem não conhece e não lhe interessa, de qualquer forma. Mas as pessoas não entendem isso. Azar. Porque uma vez cativada, é capaz de amar para sempre; ou até que a morte – um erro considerado fatal sob o seu ponto de vista – os separe. Assim, sem se abalar, continua bebendo sua cerveja e olhando para frente. Acende um cigarro para não ter que falar. Não pode falar e tragar ao mesmo tempo. Não imagina nada pior do que ter que inventar assuntos para falar com estranhos. Acende um cigarro atrás do outro. Quando se sai à noite, um maço de cigarros é primeira necessidade. Dois, por garantia. Em cima da mesa repousa em paz um álbum de fotografias – é louca por fotos. A garota, apresentada simplesmente como Kate, pede para ver e faz seu primeiro comentário – muito mal-vindo, por sinal:
– Você conhece o Augusto?
Ao que parece, ela também conhece. Recebe como resposta afirmativa um balançar de cabeça. E é tudo o que recebe. Fica sabendo que ela também conhece o seu ex-namorado e já ficou com um ou dois caras que estão nas fotos. Boceja. Levanta e vai ao banheiro. Quando volta, chama Ciccio para entrar. Mais uma noite na Lôca. Mais uma noite que não suportará sem álcool, drogas, música ou pessoas decentes.
Repentinamente aquele nome passa a lhe ser algo familiar. Kate. Kate ficou com fulano. Kate ficou com cicrano. Kate ficou com beltrano. Nunca tinha visto a garota antes. Não que tivesse notado. Tem esse grave problema, só vê aquilo que lhe interessa. Comentários nada a ver, as pessoas não têm mais o que fazer. Acha engraçado até, também já havia ficado com todos eles. Acha engraçado até o momento em que ouve um nome, no meio de todos os outros: Rey. Deve ser algum mal-entendido, que logo será desfeito. R + E + Y = Rey. Fecha a cara.
– O quê?!
– É, Anne, não fica assim, você sabe que ele não presta.
– Essa vaca...
– Ele é um filho da puta, fica com qualquer uma...
As pessoas adoram dar esse tipo de notícia. Há um prazer todo especial em dar notícias que vão foder o outro por completo. Pensa rápido, pensa rápido... Dr., um anestésico de cavalo, por favor. Bom, FODA-SE. Foda-se sempre funciona. Afinal, não é nada dele. NADA. Tem que repetir isso para si mesma infinitas vezes até parar de sentir ódio. A única pessoa que deveria se importar de verdade, a namorada, está em Santos catando conchinhas. Pensa em se unir a ela para derrotar o inimigo-comum. Esquece que também é inimiga.
"Olha, qual o seu nome? Ah, tá. É o seguinte, eu fico com o seu namorado e levo ele para a minha casa de vez em quando. Mas só de vez em quando. Ele não vai obrigado e até me fala de você, só que isso eu ignoro. Eu já sabia que vocês namoravam e tudo... Não, não, escuta, não sou nenhuma vadia... O fato é que eu sempre fui muito afim dele, e então não me importei, porque eu achei que seria uma noite e nada mais, só que agora tem essa garota e ela já é um terceiro elemento e chegou depois de você e depois de mim, não podemos permitir isso. O que você acha?"
(Bom, eu estava enganada, o "terceiro elemento", na verdade, era eu, o que não muda muita coisa, enfim).
Nem o meu ex escapou. Segundo ele, foram só uns beijinhos. Ridículo se orgulhar de "uns beijinhos".
Mas a vida é mesmo muito engraçada. Notem.
– Oi.
– Oi.
Parecia mais bonita nesse dia. Não podia deixar de achar interessante, seja como for, uma pessoa que come todos esses caras e depois joga fora, como caroços de mexerica. É exatamente nesse ponto da história que começo a gostar dela.
– Alguém quer dividir esse E comigo?
Ela estava pulando com uma garrafinha de água na mão e uma blusa transparente, tentando parecer qualquer coisa.
– Eu quero.
Pareceu espantada, mas não sei por quê.
Não demorou muito para aquilo bater. Não demorou muito para eu agarrá-la e a gente ficar dançando lá em cima do palquinho da Lôca. O que tocava já não importava mais. Nem ouvíamos – uma música ou uma pessoa ou uma droguinha pelo amor de deus... Obrigada, senhor.
O meu ex chegou por acaso – ele não freqüenta lá – e foi convidado – por ela – a subir e dançar. Eu já estava beijando ela há um bom tempo quando ele chegou, e não sei se ela estava muito à vontade com isso. Hoje em dia as pessoas ficam com outras do mesmo sexo simplesmente porque acham cool, sei lá. Acho que essas pessoas deveriam ser enforcadas em praça pública. De qualquer modo, ele entrou no meio e fomos felizes para a casa dele.
Oh, uma noite de sexo selvagem? Nada disso. Conseguimos apenas ficar nas preliminares e apagar. No outro dia vestimos as nossas roupas e fomos embora. Ainda fui comer com ela no McDonald’s, mas ela quase não falava e ficava enfiando batatas na boca sem parar e olhando para o nada – aquilo me irritou. Éramos duas completas estranhas que haviam passado a noite juntas com o mesmo cara e nada mais. Nosso único assunto foi comentar sobre os caras em comum, com os quais já havíamos ficado. E fiquei realmente feliz quando ela me disse que havia enjoado do Rey. Acho que foi a segunda coisa que eu mais gostei nela. Depois disso ela me ligou e fomos juntas ao show da banda do Augusto e a gente nunca mais se desgrudou. Talvez tenhamos nos apaixonado, de verdade, em algum momento desta história. Nem que só por uma longa noite. Certeza. Uma dessas noites em que você está bêbado e chapado demais e gosta daquela pessoa que está ali apenas porque ela está ali, do seu lado, segurando a sua mão e dançando com você as mesmas músicas, e todas as outras pessoas – incluindo as que você realmente gostaria – não estão... Portanto, tenho certeza de que a amei, em algum lugar entre o chão da Lôca e balcão da Rita, nossa fada-madrinha.
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11:47 pm - Take 21 Eu achava que depois desse episódio do motel, estava tudo acabado. E deveria estar (veja bem, não foi divertido para nenhum de nós). Mas, na verdade, não acabou. Ele sempre acaba me ligando e as coisas acabam se encaixando. Escrevi um e-mail para ele num tom de amizade, para ser sentido antes de ser compreendido. Ele entendeu. Eu não.
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11:45 pm - Take 20 Refletindo e queimando na cama
O silêncio significa muitas coisas. No momento, dor e decepção me fazem calar e viver à margem do mundo como um ser autista. Quem me dera poder gritar até estourar.
Algumas pessoas quando sentem dor choram e gritam – apenas uma tentativa de fazê-la parar. Mas eu, não. Nem ele. Lá estava ela, nua e fria, derramando suas lágrimas quentes sobre os meus sonhos empilhados. Talvez fosse apenas a depressão do pó, talvez algo muito maior, que nós – eu e ele – entendemos perfeitamente, porém ignoramos por completo. Senti raiva. Eu queria ter chorado, mas, com grande freqüência, não encontro lágrimas. Acho que no fundo queria ter chorado desde o momento em que olhei para ele, lá dentro do inferno. Chorado muito, pedido desculpas antecipadas pelo que eu já tinha feito e pelo que eu ainda iria fazer naquela noite. Desculpas por estar amando ele sozinha e em segredo, sem que ninguém mais – além do meu amigo Ciccio – soubesse. Acho que ele merecia saber. No fim vocês irão compreender que todo detalhe, mesmo aquele esquecido, irá contribuir para o desfecho desta história. You’ll see. E se vocês descobrirem o borro, onde estou errando, por favor, me enviem e-mails (upyourass@hotmail.com), me atolem em quilos de cartas malfadadas, me enviem abelhas africanas assassinas numa caixinha embrulhada pra presente... Manifestem-se!
Assim que olhei nos olhos dele, gostaria de ter explicado que era tarde demais. Todo o processo já havia sido desencadeado. Não se pode parar um trem desgovernado. Ele vai até o fim. E bate. Eu já tinha estado no banheiro. Não sorri como da primeira vez, como quando aquilo ainda era novidade e eu era movida pela minha eterna curiosidade. Fiz o que tinha de ser feito, abri a porta e saí. Só queria perder um pouco da consciência. Perder um pouco da noção do meu amor. Ver o mundo em duas cores. Porque se o ácido te dá muitas cores, o pó te dá apenas duas. Uma demorada viagem ao seu interior, só que cega. E burra. Não falei nada disso pra ele. Talvez se eu tivesse falado... talvez ele tivesse me tirado dali. Talvez pudéssemos ter fugido, como nas nossas loucas viagens por e-mail. Achei mais fácil, porém, largá-lo lá, com ela, e ficar com algo que eu amava menos, que me importava muito menos do que ele ou ela. Não sei o que ele sentiu. Não sei NADA. Sei que agüentou firme e forte. Como eu.
A única coisa em todo o mundo capaz de destruir o amor é a decepção. Cá estou, decepcionada com tudo. Decepcionada principalmente comigo, logo, com ele. Porque ele era o meu espelho. E agora eu o quebrei. Sete anos de azar. Talvez uma vida inteira.
“OI! EU SOU VOCÊ REFLETIDO NO ESPELHO E... EU SEMPRE QUIS SABER O QUE TEM AÍ... DO OUTRO LADO.”
Isso está escrito na janela do quarto dele. Disse que estava bêbado quando escreveu.
Nota: o meu amor é sempre desesperado. Por isso eu faço essas coisas. Porque ou eu acabo com ele ou ele acaba comigo. Estava demorando demais.
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11:44 pm - Take 19 Love me two times (…) One for tomorrow One just for today
Love me two times… I’m goin’ away
Fazia muito tempo que eu não ouvia Doors. A última vez que eu ouvi isso ainda estava no colégio. Céus, quanto tempo! Hoje resolvi ouvir. Aos 23 anos. Talvez porque me lembre ele. Porque me lembra aquela noite em que eu, bêbada, comecei a cantar "People are Strange" no ouvido dele, não sei bem por quê. Parecia a melhor coisa a se fazer.
No fim, eu nunca soube o que é o amor.
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11:41 pm - Take 18 Dois quartos. Um em frente ao outro. Era óbvio que não ia dar certo. (E eu no motel pela terceira semana consecutiva.) Dois pra lá, três pra cá. E a Kate correndo pelada pelo corredor e batendo no quarto da frente. (A funcionária interfonou para dizer que aquele era um "motel de respeito". Sim, um motel de família. Gritei e esmurrei portas e não gozei e ainda fui obrigada a ouvir eles fodendo ao meu lado depois. Não que não tivéssemos ido lá para isso, mas a foda deles foi absolutamente desnecessária. Estava claro que já não havia mais clima. Claro como o vinho. Depois Kate teve crise de choro e Rey a consolou e eu queria ir para casa. Tudo o que eu desejava era nunca ter estado ali. Fiz a minha melhor cara de nada e dormi. Estava tudo acabado. When the music’s over, turn out the lights.
Fiquei com o coração esmagado em algum lugar do inferno. Acho que estávamos todos em nosso próprio inferno, sem, no entanto, assumi-lo. Sequer admitimos. Ela achou melhor pedir um misto quente, dois milkshakes de morango, um quilo de batatas, enfiar tudo no centro do rabo e assistir desenhos na tevê.
Aquilo não podia estar acontecendo, era tudo o que eu pensava. Depois, pessoas felizes acordando e comendo batatas murchas com maionese. Achando que a vida é uma grande piada. Piada em plena segunda-feira?! Eu não estava mais achando graça. Eu não ria, nem sorria, nem falava nada. Eu não existia ali. Acabei. Eu não me importava mais.
Quando abri os olhos, ele estava dormindo ao meu lado – mas isso já não fazia a menor diferença. Estava quente e provavelmente sonhando com nada. Às vezes os sonhos simplesmente acabam. E aquele pau tão lindo, caído ali sem nenhuma vida. Sem brilho. Cabisbaixo. Nenhuma palavra. Fiquei olhando no olho dele. Tentando uma explicação, mas não saía nada e às vezes forçávamos um sorriso. Parecia tudo acabado. Fiz "tchau" com a mão. Acho que ele não entendeu. Ou entendeu perfeitamente, mas fez que não, com aquela cara de interrogação. Dessa vez eu ri (acho que sou masoquista) e fiz sinal de positivo ou negativo, querendo dizer se era "tchau" mesmo ou não. Ele continuou com aquela cara de interrogação e eu balancei a cabeça em sinal de desistência. Porra, eu só estava me despedindo, dizendo adeus aos nossos sonhos tolos. Foi muita ousadia a nossa. Um desafio às leis de deus.
E mais uma segunda-feira queimando em mim. Mais uma semana em que eu ardi. Game over. Acho que até ali eu o tinha amado profundamente. Até ali eu a tinha amado também. Mas quando juntou tudo, foi como acender o pavio de uma bomba que só estava esperando para explodir.
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11:34 pm - Take 17 Então, pronto, eu fiz a única coisa que eu não poderia jamais ter feito: juntei meus dois amores (ou aquilo que eu entendo por) e me mandei para aquele bar da Consolação. Na verdade, encontrei-os lá. Mas esse lugar, permita-me dizer, é um maldito lugar onde você nunca deve estar acompanhado. Nunca mesmo. Terminei com pelo menos três relações que me importavam lá dentro. Portanto, eu já sei disso há tempo suficiente para não cometer esse erro primário, mas cometi. Porque ela lá dentro é uma coisa, afinal, já a conheci lá. Mas ele lá dentro era uma coisa simplesmente impensável, até ontem.
Liguei para ele porque me deu vontade, porque senti saudade. Daí eu fiz esse convite estúpido, mas não achava que ele fosse realmente aceitar.
Se eu soubesse que ele iria, não teria entrado naquele banheiro imundo. Tarde demais. "Alguém aí tem uma nota?" "Eu tenho." Ideal-comum: a droga. O pior tipo de droga, aquela que não presta nem para ser droga. Eu não conhecia ainda aquele cara que estava junto com a gente no banheiro – acho que nem ela. Razões? Quem precisa de razões? E aquele pó branco sobe e desce amargando e anestesiando tudo. Felicidade é a última coisa que se sente. Os olhos enchem d’água, que logo seca. A boca seca, o coração seca, até a buceta seca.
Acho que depois disso ficamos conversando ali no andar de cima – a pista lá embaixo estava uma merda – e eu beijei a gótica de olhos lindos e a irmã loira dela. Beijo até o chão, depois da terceira ou quarta passada no banheiro. Álcool para completar. Não sei se a Kate gostou. Sei que ela beijou esse cara, o ruivo que entrou com a gente no banheiro, e eu bati na bunda dela e ele achou que eu estava com ciúmes e veio me beijar também. Chamei-a para descer e disse que não esperava terminar a noite com ele. E foi nesse momento que o Rey chegou. Não pensei em nada, apenas sorri. Lá dentro não se pensa. A partir do momento que você cruza a porta de entrada, e passa pela guarda e pela fauna na recepção, esqueça. O mundo lá dentro não é real. Não há bebidas nem drogas nem pessoas que chegue. É isso o que acontece. Rey nunca tinha pisado lá. Ele não sabia de nada, portanto.
Eu não faço a mais puta idéia de que tipos de sentimentos eu posso provocar em alguém. Eu não sei o que ele ou ela sentem por mim; tampouco o que eu sinto, de verdade, por eles. É tudo uma confusão dos diabos. Há uma espécie de conexão inexplicável entre eu e ele. E uma espécie de feitiço entre eu e ela. Olha, eu não sei. Se soubesse, talvez tivesse feito uma escolha. Não fiz. E quem quer tudo, acaba sem nada. Porque legal mesmo é FODER COM TUDO. Foder pouco é bobagem. Se você vai destruir algo, já disseram antes: it’s better to burn out than to fade away. Acho que sigo esse lema numa espécie de consciência retardada.
Oh, sim, repito que eles são foda antiga, então ela se sentiu muito à vontade abrindo as pernas e se sentando no colo dele e tudo bem – mesmo já tendo "enjoado", como me disse. Porque se achava em seu direito. Só que não estava. Se tivesse um pouco mais de senso, saberia que não estava. Não sou assim possessiva, de modo que não sei dizer se estava puta com aquilo ou não. Deixava os dois e ia passear. Porque sim. Porque indiferença brocha. Porque sou uma besta. Triângulos têm três pontas, uma delas é sempre o topo, não se esqueça.
Certo, eu estava cagando e andando. Aparentemente. Beijando outras pessoas, mas acho que não era o caso. Reforço que sou uma besta. Larguei ele com ela e fui abraçar o oco, beijar as bocas sem gosto. Meu cérebro derretido. Meu coração terminando de virar um amontoado de frustrações. Meu corpo sucumbindo. Meu amor por ambos deixando de existir naquele momento.
Como estava muito pouco, ainda, inventamos de ir os três para o motel. O motel! Jamais se arrepender do que está feito. Jamais arder na fogueira que você mesmo acendeu... em nome do pai, do filho e do...
Por falar em amor, quem estava lá? Augusto. Ignorei. O quão fácil é ignorar alguém que um dia cai na besteira de falar "eu gosto de você de todos os jeitos"? Eu achei que só por isso ele deveria suportar todos os meus domingos lá dentro. Eu acho TUDO errado.
Depois de dançar e rastejar pelo chão, soltar frases sem sentido, cair, fazer a dança do acasalamento e assustar pessoas, fomos em cinco para o motel. Eu, Kate, Rey e mais um casal de amigos gays – ou seja lá o que forem. Cinco quaisquer coisas fazendo qualquer coisa da vida porque amanhã isso será tudo cinzas e memórias vagas mesmo.
Ainda no bar, Kate rasgou a camiseta de Rey, o que me deixou meio puta da vida. Também me bateu de cinta. E gritou. E pegou muito álcool e ficou em alguma posição de destaque, por conta de seu maldito sangue nazista e gênio alemão, e da minha total falta de vontade de mendigar atenção de quem quer que seja. Eu ligo o foda-se, mesmo quando não é foda-se. E não preciso de toda essa atenção.
Já falei que fomos expulsos e não saímos porque não temos vergonha na cara? Pois é. Entramos os três no banheiro. O banheiro lá é misto e as pessoas entram às centenas. Acontece que justo nesse dia, o segurança não estava de bom humor e bateu na porta e nós não abrimos. Quando saímos, ele fez a única conta que sabia – um, dois, três – e resolveu que três não podia. Dois pode, três não pode. As frases que se seguiram dariam um bom roteiro para um filme D. Duas loucas de tudo, maquiagem borrada, e um bêbado com a camiseta rasgada batendo boca com o segurança de saco estourando (sim, porque só um louco para suportar outro louco; imagina você sóbrio, trabalhando dentro de um antro cheio de freaks e esquisofrênicos em geral, tendo que controlar todo mundo; surreal!):
– Roger, somos nós. – Essa foi a Kate, num surto megalomaníaco.
– Roger, você não pode fazer isso com a gente. – Eu, entrando na mesma viagem.
– VOCÊS VÃO PAGAR AS TRÊS COMANDAS E VÃO SAIR. – Roger esbravejando e nos odiando. (Sempre achei que ele nos amava, até esse dia.)
– Roger, a gente vem aqui todo domingo. – Kate, fazendo a linha "menos".
– NÃO É PORQUE VOCÊS VÊM AQUI TODO DOMINGO QUE VOCÊS TÊM O DIREITO DE FAZER O QUE QUISEREM. – Roger, uma pessoa sensata.
– Mas, Roger, ele é novo aqui. – Kate, tentando explicar o que o cu tem a ver com as calças.
– QUEM ASSINOU ESTA COMANDA? – Roger, o irredutível.
– O meu amigo, Ciccio. – Eu, achando que ele saberia de quem se trata.
– QUEM É CICCIO? – Roger perguntando já sabendo que não faria a menor diferença saber quem é Ciccio, íamos pra fora do mesmo jeito.
– O que discotecou. – Eu achando que agora ele ia ver só!
– VOCÊS FICAM, MAS ELA PAGA A COMANDA. – Roger, um estorquidor de merda.
– Eu não vou pagar a comanda. – Anne, grande garota.
– Desculpa, Roger. – Kate, finalmente com alguma noção.
– Ela não vai pagar a comanda, eu vou falar com o Ronnie! – Ciccio, que apareceu do nada e já se envolveu na confusão.
– Roger... – esse diálogo eu inventei agora.
– O QUÊ?
– Ah, vá tomar no cu! – mas eu gostaria de ter dito na hora.
Rey não se pronunciou em nenhum momento, pelo que me lembro. E no fim, nós não saímos e eu não paguei a comanda, Kate pagou. Mas, sim, eu deveria ter pago, pego o primeiro vôo para o Afeganistão e ficado por lá.
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11:33 pm - Take 16 Constatações de outro dia – enquanto estava indo de ônibus para algum lugar que já não me lembro qual era.
Depois de se conseguir um bom emprego, para as futilidades, espera-se um amor (que nem precisa ser grande) para preencher dois buracos: o da buceta e o do coração.
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11:32 pm - Take 15 Liguei para ela e marcamos de nos encontrar na Av. Paulista, então fomos para um desses espaços culturais cheios de gays e modernos e gente cool e descolada. Eu achei que estava entrando na sala de cinema, mas quando abrimos a porta, era um show e havia um palco. Sentamos no chão e assistimos. Boa música. Nos mandaram calar a boca – um desses últimos hippies que vieram andando a pé de Woodstock e deveriam morrer com uma cenoura plantada no centro do rabo. Como sempre, ela achou de gritar gracinhas para a banda, e depois falou para quem quisesse ouvir que só tinha gente medíocre ali. Depois virou para mim, me deu um beijo, e disse que não estava me incluindo. Como eu não vou gostar de uma pessoa dessas? Talvez goste de desviar a atenção do palco para si, mas tudo bem. Já nem quero mais cavar um buraco e me enfiar dentro. Provavelmente ela faz o que todos têm vontade de fazer. Provavelmente cada bunda colada naquelas cadeiras estofadas preferisse um banquinho de madeira no palco ao invés do reconhecimento sombrio de uma cadeira de platéia. E é assim que eu a assumo. Assumi por completo. Exceto quando não amamos as mesmas coisas. Ou quando amamos ao mesmo tempo o que não deveríamos.
Ela foi trabalhar e eu vim no ônibus com todas as soluções – em relação a ele – na cabeça: seremos amantes para sempre. Com tudo claro: continue com a sua garota, eu já tenho a minha e quero continuar com ela. Mas é claro que foi só chegar em casa que tudo escureceu novamente. Apagaram a luz. Racionaram as soluções. Acho que estou ficando cansada.
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11:31 pm - Take 14 Ela não é reserva! Está até muito longe disso, o meu amor de saia. E toda vez que ele erra – mesmo sem saber –, me joga mais nos braços dela. Braços magros e pálidos, com a tatuagem de um gato japonês e um bracelete no pulso. Braços que estão muito longe de me amparar ou confortar – bem, às vezes confortam –, mas, de qualquer forma, braços. Os braços que ele me nega. Porque tem medo. Ou simplesmente porque sim. Lembro que no dia do capote do fusca me apertavam mais, talvez pressentissem algo que nem eu mesma sabia.
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11:30 pm - Take 13 Todo mundo é capaz de sentir dó de si mesmo. Até o ser mais filho da puta que habita este planeta é capaz de sentar e chorar por horas, pensando exclusivamente na própria vida. Jesus na cruz clama por piedade. Mas não eu. Eu detesto autopiedade. Choro muito pouco. Mas hoje, deitei naquela cama encardida, aproveitei uma desculpa esfarrapada qualquer, e chorei por uns bons cinco minutos, talvez um pouco mais. Cinco minutos de lágrimas quentinhas e salgadas rolando pela minha face, junto com baba e coriza – um horror! Mas depois, que alívio! Vi um filme da minha vida passando. Um curta. Personagens velhos e moribundos que o meu inconsciente não quer apagar. Eles sempre voltam, os filhos da puta. Para me queimar. Para dizer que eu não vou para o céu. Bem, fodam-se. É tudo o que eu tenho para lhes dizer. Só não chorei por uma única pessoa, medíocre demais para ser chorado, chore sozinho. Quem nunca pegou um par de olhos azuis e resolveu acreditar neles por pura boa vontade?
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11:23 pm - Take 12 O modo como o conheci já não é mais de grande importância – isso ficou em outra história. Mas, só para constar: eu estava lá, naquele show, por causa de um cara do Sul que gostava de se fazer de veado. Um truque barato, porque um dia ele tirou aquele pau enorme pra fora e eu fiquei realmente pensando se hoje em dia é possível se acreditar em alguém. (Bom, parece que faz mais tempo do que na verdade faz). Então o encontrei, atrás da bateria. E bateu. E as coisas quase nunca batem. O nome dele é Rey. Meio espanhol, meio italiano. Rey tem uma namorada. Mas tudo o que me importa é que ele me parece mais real do que a maioria das pessoas que eu conheço. Eu acredito nele, não me apaixono por pessoas nas quais eu não acredito, a menos que eu ERRE feio, lógico. Tudo o que me importa é que ele bebe, bebe, e não cai jamais. Importa que ele tem um pau lindo. Importa que ele não é mais um. Importa que a gente se entende e que agora que vocês já sabem o nome dele, o itálico pode ficar de lado. Todos os "ele" que importam serão ele, Rey. Acho que sim. Importa que ele, assim como eu, não sabe bem o que quer da vida. Quem sabe, afinal? Quem quer certezas? Vida eterna? Esperar Jesus voltar?
Ainda me lembro do nosso primeiro beijo. Foi quente e alcoólico e com o meu namorado do lado. O ex. Também me lembro do segundo, ele abaixou para falar comigo e eu o agarrei e levei pra casa e as coisas aconteceram como deviam. Porque quando elas têm que acontecer, também, acontecem. Há quem chame de destino – eu, porém, não acredito muito em nada disso.
Fiquei feliz e tudo, com o fato de ele ter ido parar na minha casa, mas depois ele foi embora. Depois de ter estado dentro de mim. Depois de ter pisado no meu chão. Depois de ter respirado a minha poeira. Simplesmente colocou a guitarra nas costas, me deu um beijo e sumiu. Até o dia em que me ligou, e agora já não me lembro de todos os beijos, o que deve ser bom. Ou não. O álcool tem esse poder de intensificar as coisas, tornando-as, muitas vezes, surreais. Sempre que nos encontramos, terminamos muito bêbados. Mas para o que parecia ser tão remoto, até que não estamos tão mal. Agora já estive no meio das coisas dele. Acho que eu ficaria com ele, assim, de verdade. Mas ele tem namorada. Talvez me encare como algo passageiro. Tudo bem, o que não é passageiro na minha vida? Melhor aproveitar. Ou fugir para bem longe desse sonho. As possibilidades não são tantas assim: ou ele larga a namorada e ficamos juntos; ou ele não larga e não ficamos; ou continuamos nos encontrando e fodendo e entendo as coisas juntos esporadicamente – talvez até a areia (da ampulheta) terminar. Take life as it comes, cantou a P.J. Harvey certa vez, e eu acredito nela.
Não, não, irmãos, antes que vocês me perguntem, eu não leio a Bíblia. Nunca li. Não sei nada sobre pecados que vá fazer alguma diferença. A única coisa que eu sei é que "love is my sin" (meu e de Shakespeare – tenho essa frase tatuada nas costas) e que "Jesus died for somebody sins but not mine", como bradou Patti Smith em 70. Tenho, no entanto, uma avó crente fanática e outra católica convicta. Apesar disso, a única vez em que eu entrei numa igreja foi para dormir nos bancos nada confortáveis do senhor e fugir do sol. Mas dos sinos eu gosto. Adoro quando os sinos batem. E tenho uma opinião de que igreja (pelo menos a católica) é um lugar que convida a pecar, por mais absurdo que isso possa parecer. Imagina, todos aqueles santos seminus e pessoas ajoelhadas, pedindo perdão sabe-se lá por quê! Igreja é lugar de quem deve. Minha maior fantasia sexual, contudo, é foder bem no meio de uma igreja, sob as bençãos do senhor. Porque eu não devo nada a ninguém, que fique bem claro, a não ser dinheiro. E deus é um grande voyer, obviamente. Se eu vou realizar essa fantasia algum dia? Pouco provável, não?
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11:20 pm - Take 11 Alguma vez vocês já experimentaram tacar sal numa lesma? Elas vão desidratando e derretendo, até que morrem. No dia em que ele me mandou aquele e-mail estúpido, me senti exatamente como uma lesma, derretendo e indo embora de todos os meus sonhos estúpidos.
Daí eu escrevi essas coisas – de grande descarga emocional e sem valor algum real, mas que contam como fato histórico. (Por favor, crianças, não olhem para a letra enquanto estiverem ouvindo a canção.)
Flores são para os mortos, e eles não falam
Você se lembra de quando tudo isso começou? Você se lembra de como tudo isso começou? Você tá vendo que acabou? Tá? Ótimo Porque no fim todos perdemos Nós perdemos, meu amor Achou que ia ganhar esse jogo, não foi? Pelo menos eu nunca achei nada, porra nenhuma Nunca esperei muita coisa Eu só tava indo em frente, porque não sei andar pra trás Eu só tava tentando, e ninguém pode me crucificar por isso Agora que tudo acabou... Bom, eu sei, o cenário é devastador Não há mais nada aqui E o filme que eu não revelei? Como te ver na foto e sorrir? Como adorar um morto se nenhuma lágrima o fará reviver? Não. Foda-se. Sozinho. Foda-se Não me leve com você Pareço morta, mas estou viva Porque eu ainda tenho muita vida dentro de mim Você quis acabar com ela, mas não conseguiu Só conseguiu tomar do próprio veneno Veja como você é burro, meu amor Todos os meus amores foram burros Você foi o último deles Chorei mesmo Berrei Rasguei a minha alma inteira, mas não foi por você Foi pelos sonhos – os meus sonhos Eu não gosto de perder sonhos Sou uma sonhadora Agora este acabou E começou tão bonito... Eu sempre soube que ele aconteceria Mas depois eu não sabia de mais nada Agora já sei O filme O fim O nada
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O mundo fez um pouco menos de sentido ontem. "Um pouco" porque, afinal de contas, você não foi muito. Sempre te olhei grande, mas era fome de grandeza. Então, do alto de sua baixeza, você resolveu me derrubar. Fiquei caída sem entender nada. Depois levantei, enxuguei as lágrimas e esqueci. Nem todas as ondas me ferem profundamente. Você foi uma onda rasa, daquelas que passam sem se tornar nada. Golpe baixo, rasteiro. Mas não tem problema. A sua lápide já tem o seu nome. Eu não gosto de pessoas que jogam sujo. Eu não gosto de pessoas que jogam. Sequer gosto de pessoas. Você não entendeu nada. Não entendeu que eu te queria ao meu lado, nunca em cima ou embaixo. Achou que devia ser maior. Achou que me faria menor. Errou feio e sem volta. Erros, aqui, não são perdoáveis. Agora vai. E não olha pra trás.
Tudo mentira. Eu estava com o coração partido, morrendo de dor. É lógico que eu sorri ao ver a foto. Sorri e colei a foto na parede vermelha do meu quarto lá fora. Inclusive, converso, beijo, bebo vinho e como lanches em padarias que deveriam se chamar Nowhere com os mortos. Só não falo "eu te amo" – mas falo que GOSTO UM MOOONTE –, porque isso eu não falo mais para ninguém. Ainda que seja a mais impura verdade. Amém.
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